domingo, 30 de dezembro de 2007

António Andrade de Albuquerque - Dick Haskins

E se de repente, um dos meus autores favoritos, daqueles que adoraria conhecer pessoalmente, cuja obra devoro e me preenchem em cada palavra escrita, em cada história contada, escrevesse no meu blog?

Impossível, estou delirante com certeza.... Mas é verdade, aconteceu!!! Hoje, ao fazer uma rotina habitual - abrir o blog e verificar os novos comentários - vi dois comentários que me deixaram em êxtase: estavam assinados "A. Andrade Albuquerque (Dick Haskins)". De início nem acreditei, não podia ser, claro que não... Mas depois... era verdade, o autor dos policiais que tanto gosto (quem me conhece sabe bem que é verdade) tinha feito dois comentários no meu post "Feliz Natal". Isto sim, é uma grande prenda de Natal!!! Fiquei com um sorriso de felicidade que ainda perdura. Senti-me mesmo muito feliz, por saber que o meu blog, um espaço onde partilho um pouco das minhas histórias, em especial livros, autores e música, foi visitado por alguém que tanto admiro, bem como à sua obra. É mesmo difícil colocar em palavras o que sinto.
Obrigado Dick Haskins, pela atenção prestada, pelos comentários e pelas palavras de apreço e simpatia, pelo sorriso e felicidade despertados.

E agora, aqui fica a explicação do pseudónimo Dick Haskins, explicado pelo próprio:

"O pseudónimo que usei no género policial que escrevi (Dick Haskins) nada teve ou tem a ver com o 25 de Abril. Simplesmente, quando optei pela profissão de escritor (final da década de cinquenta) ninguém aceitava um livro da chamada literatura policial se o autor não tivesse um nome estrangeiro, particularmente inglês. Optei, então, por Dick Haskins, mas - na verdade - nunca ocultei a minha verdadeira identidade com o pseudónimo; logo no início da minha carreira como escritor, quando principiei a ser editado em países estrangeiros,a imprensa, a rádio e a televisão sublinharam que Dick Haskins era António de Andrade Albuquerque... e, no que me diz respeito,evidenciei uma vez mais a identidade pseudónimo-nome próprio quando, este ano, as Edições ASA publicaram os meus livros O PAPA QUE NUNCA EXISTIU e O EXPRESSO DE BERLIM, primeiros romances que escrevi fora do género policial."

Um Feliz Ano Novo para sí, António Andrade de Albuquerque.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

À ESPERA...

Vivemos a vida à espera...

Esperamos por dias melhores, por um salário maior, ... esperamos pelo tempo que nunca temos, dizemos com frequência "Fica para a próxima"... E enquanto esperamos, adiamos um hoje real por um amanhã expectante... adiamos "para a próxima" mesmo sem sabermos se "a próxima" existirá algum dia; adiamos um pequeno sorriso na esperança de uma grande gargalhada...

Mas enquanto esperamos e adiamos, esquecemos algo importante... esquecemos que vivemos hoje, que podemos ser felizes aqui e agora se soubermos viver já, em vez de adiarmos para depois.

É por isso que é hoje que digo às pessoas que amo o quanto as amo, que digo aos meus amigos "Gosto de ti", que vou sorrir, chorar, dar uma boa gargalhada, respirar fundo e encher-me de vida... viver...

Porque amanhã posso já não estar...

domingo, 23 de dezembro de 2007

FELIZ NATAL

Um Feliz Natal para todos os que visitam este blog - família, amigos, leitores habituais, curiosos, ...

Que o Pai Natal vos traga tudo aquilo que querem.



quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

Circo de Feras 9/12/2007

Campo Pequeno, dia 9 de Dezembro, 16 horas. Cá estou eu, à espera do meu segundo concerto deste fim de semana. Ontem foi muito bom e espero que hoje também seja. Não consegui bilhete para o concerto da tarde, por isso só vou ao da noite, mas aqui onde estou, na entrada para a Plateia em pé, consigo ouvir o concerto... ihihih...

Longa se torna a espera, hoje vim sózinha, mas entretanto chega o Jorge (que também cá esteve ontem) e depois a Madalena. O tempo passa... e a hora aproxima-se... cá vou eu novamente para as grades, do lado direito do palco.

Que grande espectáculo! O jogo de luzes, o som, os convidados, os números de circo... Mais uma vez destaco o coro de Gospel, em especial a actuação em "Estupidez" e os Tocá Rufar, brilhantes em toda a exibição, com uma entrada fenomenal - umas verdadeiras Feras em palco.

E os Xutos... bem... esses estavam brilhantes, fenomenais, lindos... iguais a si mesmos, os maiores e os melhores. Um belo solo do João Cabeleira, o "Homem do Leme" acústico, "Nesta Cidade" com o Tim mesmo à minha frente, o som do sax que sempre adorei...

Que mais posso dizer... Foram 20 anos de Circo de Feras e 20 anos de fã, comemorados da melhor forma.

Aos Xutos, a todos os que estiveram em palco, aos que idealizaram, produziram, conceberam e criaram este espectáculo, um BEM HAJA!

Deixo mais umas fotos:


domingo, 9 de dezembro de 2007

CIRCO DE FERAS - 8/12/2007

Ontem foi o 1.º Concerto do Circo de Feras, no Campo Pequeno. Cheguei cerca das 16 horas ao Campo Pequeno e ali fiquei à espera da minha amiga sónialx. Pouco depois chegou a Cláudia, e enquanto esperávamos, fomos conversando e acabámos por ficar juntas até ao final do concerto.

O concerto foi LINDO, LINDO, LINDO. Adorei o espectáculo, as actuaçoes dos Toca a Rufar foram fenomenais, o Gospel muito bonito, o recinto cheio... e cantaram o Homem do Leme!!!
Fiquei mesmo na frente, de um local onde via o palco todo (obrigado aos seguranças pelas dicas) e tirei bastantes fotos.

Hoje lá vou estar outra vez, espero que no mesmo sítio, e com mais fotos. Depois conto como foi.

Obrigado Xutos!!!

E obrigado marido!

Aqui ficam algumas fotos deste dia.









terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Tess Gerritsen

Tess Gerritsen é uma autora norte-americana, que há algum tempo ganhou espaço nas prateleiras da minha biblioteca. Médica de formação, começou a escrever em 1987 (ano em que foi publicado o seu primeiro livro, um thriller romântico). Em 1996 publica o seu primeiro policial, num estilo muito próprio.

A sua escrita, viva e plena de acção, assume características pouco recomendáveis a leitores mais sensíveis, com descrições quase cirúrgicas dos crimes que relata. Ao longo dos seus livros, as personagens vão criando uma história própria, individual, uma certa cumplicidade com os leitores, que passa de livro para livro, onde as suas vidas se desenvolvem ao mesmo tempo que as mentes mórbidas e sádicas dos assassinos vão pondo em prática as suas loucuras, desejos e fantasias.

Jane Rizzoli é a detective que, num mundo dominado pelos homens, procura não mostrar fraquezas, apesar de também as sentir como todos os seus colegas. É uma mulher aparentemente fria, pronta para ser a primeira a enfrentar o perigo e correr riscos, mas que no fundo procura superar a sua fragilidade. Ao longo dos diversos títulos, a Jane Rizzoli detective e a Jane Rizzoli mulher vão-se cruzando e, muitas vezes, contradizendo.

A patologista Maura Isles é, ao contrário da detective, uma mulher que desperta a curiosidade masculina. Conhecida por "Rainha dos Mortos" é a ela que cabe a tarefa de autopsiar os corpos das vítimas, de "falar" com os cadáveres e dar, algumas vezes, respostas, outras vezes, levantar questões. Fechada no seu casulo, dá a imagem de mulher inacessível, inabalável, mas que no fundo, esconde uma vida e um passado.

Em Portugal, o "Círculo de Leitores" já editou 5 títulos desta autora:

"O Cirurgião" - Um assassino silencioso entra em casa das mulheres enquanto elas dormem. Fere-as com a precisão de um cirurgião... Os jornais de Boston começam a denominá-lo de "O Cirurgião"... Catherine Cordell, médica e sobrevivente de um ataque muito semelhante ao de "O Cirurgião", é a única pista que os detectives Jane Rizzoli e Thomas Moore têm. Mas, como é possível os crimes estarem a ser repetidos se Catherine Cordell matou o seu agressor?...

"O Aprendiz" - Boston; um verão escaldante e uma série de crimes horrendos. Homens abastados são forçados a assistir, enquanto as suas esposas são brutalizadas, após o que também eles serão assassinados. Quem será este assassino, cujo sadismo amedontra a cidade? O perfil sugere o assassino "O Cirurgião", recentemente preso. A polícia segue a pista de um acólito à distância, que imita o seu ídolo maníaco e louco. Jane Rizzoli vê-se, novamente, na pista do assassino que a marcou... Só que desta vez está decidida a acabar com ele, mas espera-a uma vingança mais cruel do que se possa imaginar...

"A Pecadora" - No interior do convento, na Capela de Nossa Senhora da Luz Divina, encontra-se o mal: duas freiras jazem no chão, uma sem vida, outra gravemente ferida, vítimas de um assassino sem piedade. Ao autopsiar a irmã Camille, de 20 anos, a patologista Maura Isles descobre que esta freira tinha dado à luz pouco antes de ser assassinada. A seguir, é descoberto outro cadáver, mutilado e irreconhecível. Maura Isles e a detective Rizzoli juntam-se, para descobrir que estes dois homicídios se ligam por um antigo horror.

"Duplo Crime" - E se de repente, o corpo que jaz na nossa frente fosse o nosso? Foi isso que aconteceu a Maura Isles, ao descobrir que a mulher que foi assassinada à porta de sua casa, era igual a si própria... O ADN confirma que essa mulher é sua irmã gémea. Mas , Maura sempre fora filha única... Uma investigação de homicídio que se transforma numa viagem a um passado desconhecido... à descoberta de uma mãe que, paralelamente ao poder de lher ter dado a vida, julga ter o poder de lha tirar...

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

Salvador Dali

Salvador Dali nasceu a 11 de Maio de 1904, em Figueras, uma pequena cidade da província de Gerona. Desde o seu nascimento que a morte é uma presença na sua vida e, mais tarde, na sua obra: Salvador recebe o nome de um irmão que morrera prematuramente poucos anos antes do seu nascimento. Para além de receber doses extremosas de afecto dos seus pais, o que contribui para a sua personalidade excêntrica e egocêntrica, também Salvador Dali se vê como o fantasma do irmão falecido.


Muito cedo, com apenas 10 anos de idade, Dali decide que quer ser pintor. A sua origem catalã e a sua infância influênciam a sua pintura, onde, desde as primeiras obras , em quase todos os seus quadros, se vê como pano de fundo as paisagens rochosas da costa catalã.
Também a metáfora gastronómica, as noções alimentícias e o canibalismo são das constantes mais significativas da obra e pensamento daliniano. O comestível assume-se como representante do mortal: tudo o que se come é susceptível de putrefacção e antecipação da morte (muitas vezes representado pelas formigas nos seus quadros), ao mesmo tempo que cozinhar significa metamorfose, transformação do duro em mole. Assim, comer pode ser incorporar, apreender o que é alheio, numa metáfora paranóica do conhecimento.


Canibalismo de Outono (1936 - 1937)


Esta obra relaciona o comer à morte, através de um macabro banquete. Todos os pormenores são retratados, desde os utensílios aos diversos alimentos. A violência da cena é suavizada pelos tons outonais.

Outro tema frequente na obra de Dali, são as gavetas. Dalí inspira-se nas teorias psicanalíticas de Sigmund Freud para pintar os seus célebres quadros "O Contador Antropomórfico" (1936), "Girafa em Chamas" (1936 - 1937) ou "Espanha" (1938). Segundo Salvador Dali, "A única diferença entre a Grécia imortal e a época contemporânea é Freud, que descobriu que o corpo humano, que era puramente neoplatónico na época dos Gregos, está hoje cheio de gavetas secretas que só a psicanálise é capaz de abrir."

O Contador Antropomórfico (1936)

Neste quadro, a figura encontra-se com a cabeça debruçada sobre as suas próprias gavetas, numa alegoria psicanalítica da tendência para aspirarmos o odor narcísico das nossas próprias gavetas.


Espanha (1938)

Uma gaveta pode abrir-se para deixar sair os odores nauseabundos da guerra, numa alusão aos horrores da Geuerra Civil Espanhola.

Este quadro conduz-nos a um outro tema nobre de Dali - as imagens duplas, anamorfoses ou imagens distorcidas que só são visíveis quando se observa o quadro de determinado ponto de vista. Trata-se de um dos exemplos mais evidentes do método paranóico-crítico. É como se existissem dois quadros num só, originando uma terceira dimensão. Nestas obras, Dali revela a inapreensível relatividade do mundo das imagens.

No quadro acima reproduzido "Espanha" dois cavaleiros num duelo à lança formam os peitos da mulher, cuja cabeça é formada por um grupo de pessoas num violento combate.


O Enigma sem Fim (1938)


De acordo com a atenção fixada numa parte ou outra do quadro, pode ver-se o busto de Freud, uma natureza morta, um homem reclinado, um galgo,...


Dois outros elementos constantes na obra de Dali são as muletas e a criança com o arco, que aparecem juntas este quadro.


O Espectro do Sex-Appeal (1934)

A criança representa Dali, testemunha infantil das suas próprias visões, enquanto que as muletas têm duas interpretações - fazem a ligação entre o surreal, o imaginário, o paranóico e o real (estando enterradas no solo, suportando as imagens) ou por vezes representam a sublimação da ideia de impotência, a dualidade entre o duro e o mole tâo característica de toda a obra deste artista.

O Grande Paranóico (1936)

As várias pessoas do quadro formam um rosto.

Muito mais há a dizer sobre a vasta obra de Salvador Dali... talvez num outro post...

domingo, 4 de novembro de 2007

Desafio

Vi no blogue do Alquimista este desafio e decidi aceitar:

1. Pegue num livro.
2. Abra na página 161.
3. Procure a 5ª frase completa na referida página.
4. Transcrever a frase no blogue. Tal como identificar o livro, o(a) autor(a) do mesmo.
5. Passar o desafio a cinco bloggers.

"Ana de Áustria baixou a cabeça, deixou esgotar a torrente sem responder, esperando que ele, depois de cansado, se calasse; mas não era isso o que queria Luís XIII; Luís XIII queria uma discussão de onde obtivesse qualquer esclarecimento; tal era a convicção que tinha de que o Cardeal ocultava alguma segunda ideia e lhe maquinava uma dessas surpresas terríveis, daquelas que Sua Eminência sabia preparar."

("Os Três Mosqueteiros" - Alexandre Dumas)

Se alguém quiser, que agarre este desafio...

sábado, 3 de novembro de 2007

O meu professor de Filosofia

Há pessoas que ao longo das nossas vidas nos vão marcando de forma decisiva. Para mim, uma dessas pessoas foi o meu primeiro professor de Filosofia.

A forma apaixonada com que fazia o seu trabalho, a dedicação com que dava as aulas, sempre foram, para mim, um modelo a seguir.

Aquele homem conseguia dar as suas aulas porque nos dava o que nós queríamos: uma nova realidade, novas formas de questionar o que nos era apresentado como verdade, sentido crítico. Nas suas aulas, aquele grupo de jovens vestidos de preto, com correntes à cintura, cruzes e caveiras, fazia-se ouvir, podia expor as suas ideias tantas vezes apelidadas de anárquicas. E em resposta, lá vinha mais um autor e as suas ideias, umas vezes concordantes, outras nem por isso, mas sempre a aprendermos que até para defendermos aquilo em que acreditamos é importante conhecer o contraditório.

Foi nas suas aulas que conheci Freud, Nietzsche, Einstein, Salvador Dali, as teorias do Caos, da Relatividade, o Big Bang, o Surrealismo, o Niilismo,...

Quantas vezes foram as letras das músicas que ouvíamos o mote para uma qualquer matéria... Numa idade em que queremos mudar o Mundo, um professor mostrou-me que isso é possível: se todos mudar-mos e melhorar-mos o nosso Mundo, o Mundo de todos é mudado e melhorado.

Ainda hoje, quase 19 anos passados (tenho agora a idade que o professor tinha naquela altura), lembro o Professor Álvaro Daniel Formigo Nunes, como um dos grandes mestres da minha vida.

E aqui fica uma música que esse professor assobiava enquanto nós fazíamos os testes.
http://www.youtube.com/watch?v=kPp_0sOZr4E

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

As amizades são assim...

Pode ser que um dia deixemos de nos falar...
Mas, enquanto houver amizade,
Faremos as pazes de novo.

Pode ser que um dia o tempo passe...
Mas, se a amizade permanecer,
Um de outro se há-de lembrar.

Pode ser que um dia nos afastemos...
Mas, se formos amigos de verdade,
A amizade nos reaproximará.

Pode ser que um dia não mais existamos...
Mas, se ainda sobrar amizade,
Nasceremos de novo, um para o outro.

Pode ser que um dia tudo acabe...
Mas, com a amizade construiremos tudo novamente,
Cada vez de forma diferente.
Sendo único e inesquecível cada momento
Que juntos viveremos e nos lembraremos para sempre.

Há duas formas para viver a sua vida:
Uma é acreditar que não existe milagre.
A outra é acreditar que todas as coisas são um milagre.


(Albert Einstein )

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

Manoel de Oliveira

Alguns de vocês já sabem e perguntam-me: "Como é que gostas de Manoel de Oliveira?"; outros ficarão agora a saber e, provavelmente, perguntarão o mesmo.

Mas a verdade é que gosto mesmo dos filmes de Manoel de Oliveira. São filmes profundos, com diálogos fantásticos, que contêm sempre uma reflexão social, moral, religiosa.
Os filmes de Manoel de Oliveira são, normalmente, caracterizados como "parados", devido à "lentidão" com que se desenrrola a acção e aos movimentos subtis da câmara, fazendo grandes planos de objectos ou cenários. Para mim, os filmes de Manoel de Oliveira são plenos de acção, não de uma acção visual, mas de uma acção emotiva, reflexiva, onde as palavras e os conteúdos assumem o papel principal, deixando os actos em segundo lugar. O seu cinema é um cinema que comunica pelas palavras e pela imagem, não pela acção. Para entender e gostar de Manoel de Oliveira é preciso penetrar fundo nos diálogos, na história, geralmente adaptada de textos literários. Manoel de Oliveira, cria nos seus filmes, personagens , que representam, acima de tudo, conceitos, ideias, ideais, personagens irreais em cenários reais.

Sempre fui ver os seus filmes sózinha, mas é assim que me fazem sentido, em especial se forem vistos no Quarteto ou no King. São momentos únicos, momentos meus, que eu adoro.

Manoel de Oliveira tem hoje 98 anos e é um dos portugueses que eu gostaria de conhecer.


Aqui fica a sua biografia:

Manoel Cândido Pinto de Oliveira nasceu a 12 de Dezembro de 1908, no Porto, no seio de uma família burguesa (o seu pai foi o primeiro fabricante de lâmpadas português). Desde muito cedo acompanhava o pai ao cinema, o que lhe despertou o interesse pela sétima arte. Estudou no Porto, no Colégio Universal, e na Galiza, no Colégio Jesuíta de La Guardia.
Aos 20 anos, inscreveu-se na Escola de Actores de Cinema, participando como figurante num filma de Rino Lupo, em 1928 - "Fátima Milagrosa".

A 21 de Setembro de 1931 estreou no Congresso Internacional da Crítica a versão muda de "Douro, Fauna Fluvial". Em 1933, é mais uma vez actor, no filme "Canção de Lisboa" e em 1934 estreou a versão sonora de "Douro, Fauna Fluvial".

Manoel de Oliveira destaca-se, entretanto, no automobilismo, chegando mesmo a vencer a "II Rampa do Gradil", em 1938. Casa-se com Maria Isabel Brandão Carvalhais, em 1940.

A sua primeira longa-metragem "Aniki-Bóbó" é realizada em 1942. Na década de 50, por falta de apoios financeiros não realiza alguns filmes que já existiam no papel, tendo-se dedicado então, à produção agrícola da família, na região do Douro. Em 1955 realizou um estágio intensivo na Alemanha, nos laboratórios da AGFA, com o objectivo de estudar a cor aplicada ao cinema. A década de 60 é a década da consagração internacional - Homenagem no Festival de Locarno, Itália, em 1964 e passagem da sua obra na Cinemateca de Henri Langlois, Paris, em 1965.
Em 1980 recebeu a Medalha de Ouro pela sua obra, atribuída pelo CIDALC, e em 1985 o seu filme "Le Soulier de Satin" é galardoado com o Leão de Ouro no Festival de Veneza.

Em 1988 apresentou, no Festival de Cannes, o folme "Os Canibais" e em 1990 "Non ou a Vã Glória de Mandar" foi exibido extra concurso, com uma menção especial do júri oficial. São várias as homenagens que tem recebido - Veneza (1991), La Carmo (1992), Tóquio (1993), São Francisco e Roma (1994), entre outros. A Sociedade Portuguesa de Autores atribuiu-lhe, em 1995, o Prémio Carreira e em 1997, a SIC e a revista CARAS atribuiram-lhe o Prémio de Melhor Realizador.

(para a biografia foram consultados: www.citi.pt e pt.wikipedia.org)


Num próximo post colocarei a filmografia completa de Manoel de Oliveira, com uma breve sinopse de cada um dos filmes.

terça-feira, 16 de outubro de 2007

A POMBA - Patrick Suskind

"Já quase transpusera a soleira, levantara já o pé, o esquerdo, a perna já começara a dar o passo - quando a viu. Estava pousada diante da porta, a menos de vinte centímetros da soleira, iluminada pelo pálido reflexo da luz matinal que entrava pela janela. Estava encolhida, com as patas de garras vermelhas assentes no pavimento do corredor, no ladrilho encarnado, cor de sangue de boi, com a sua plumagem lisa, cinzenta-chumbo: a pomba.
(...)

Enquanto se barbeava, foi raciocinando sobre os factos. "Jonathan Noel", disse de si para si, (...)Que fazes se conseguires passar pelo bicho medonho que guarda a tua porta, alcançar as escadas incólume e pôr-te a salvo? Poderás ir trabalhar, poderás chegar ileso ao fim do dia - mas que fazes depois? Para onde vais esta noite? Onde dormes?"Porque de uma coisa tinha ele a certeza absoluta, de não querer encontrar a pomba uma segunda vez (...)"


Terminei de ler este livro. Um livro pequeno, de 89 páginas, sobre o qual li num fórum de literatura. O autor, já conhecia, de um outro livro que li e sobre o qual um destes dias escreverei - "O Perfume".
"A Pomba" é um livro ligeiro, bem escrito, de uma linguagem simples, mas cujo conteúdo, também simples, nos leva a reflectir sobre a nossa existência.
Jonathan Noel leva uma vida monótona entre o seu trabalho como segurança num banco e o seu pequeno quarto alugado. Os seus dias são pautados pela rotina, os seus movimentos constituem rituais que lhe conferem estabilidade e segurança. Uma vida racional, onde as emoções e as relações pessoais não encontram espaço. Até que um dia, esta vida monótona é abalada por um acontecimento inesperado - de manhã cedo, ao abrir a porta do seu quarto para se dirigir à casa de banho comum, Jonathan Noel encontra uma pomba no corredor. Algo simples para qualquer comum mortal, mas não para ele... para ele, este acontecimento provoca uma quebra no seu dia-a-dia sempre igual, abalando a sua vida.
Uma reflexão existencial simples, mas ao mesmo tempo profunda., que nos coloca uma questão: por vezes, simples acontecimentos inesperados, podem mudar a nossa vida e a nós próprios. Estamos preparados?

sexta-feira, 12 de outubro de 2007

O PSICANALISTA - John Katzenbach


"Um 53.º aniversário muito feliz, senhor doutor. Seja bem vindo ao primeiro dia da sua morte. Existo algures no seu passado. O senhor destruiu-me a vida. Pode não saber como, nem porquê, nem sequer quando, mas destruiu. Desgraçou e entristeceu cada segundo da minha existência. Destruiu-me a vida. E agora eu tenciono destruir a sua.(...)
Mate-se, doutor.(...)
Portanto vamos jogar o seguinte jogo: O senhor tem exactamente quinze dias, a contar das seis horas de amanhã, para descobrir quem sou.(...) Se não conseguir, então... Essa é que é a parte divertida.(...)"


Ricky Starks, um psicanalista de Nova Iorque, recebe uma carta no dia do seu 53.º aniversário. Nessa carta, alguém que o conhece e à sua rotina diária, mas cuja identidade ele desconhece, define uma espécie de jogo em que o prémio é a vida ou a morte do psicanalista. Se descobrir quem é o autor da carta, sobrevive; se não descobrir terá de se matar ou alguém da sua família será destruído. Ricky Starks tem 15 dias para viver ou morrer.

"O Psicanalista" é um livro sobre o mal e a vingança; é um livro em que o passado procura acertar contas no presente, em que o ressentimento não tem limites... Para compreender o que está a acontecer, Ricky Starks terá de viajar até ao seu passado, ao início da sua carreira como psiquiatra e psicanalista, terá de pensar como o assassino que o persegue, terá de aprender a não confiar, terá de renascer...

Uma história brilhante de corrida contra o tempo, um perverso jogo de vingança que nos prende da primeira à última página.

De acordo com The Washington Post: "Em parte thriller, em parte tratado existencial, em parte registo freudiano do inferno... Um ritmo tenso, com um impecável sentido do tempo... A prosa ágil de Katzenbach é densa de atmosferas."

Já li e adorei. Um livro ao meu estilo: frio, intenso, onde as emoções e a racionalidade se cruzam, na busca da verdade, na busca da vida.

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

Aung San Suu Kyi





Não consigo ficar indiferente à luta desta mulher, de ar terno, que trava uma batalha memórável pela libertação do seu povo. São pessoas assim que merecem a minha admiração.

Um pouco da sua história:

Nasceu eu Rangum a 19 de Julho de 1945, filha de Aung San, herói nacional da independência da Birmânia, assassinado quando Aung San Suu yi tinha apenas dois anos de idade. Estudou nas melhores escolas de Rangum, na Índia e foi assistente da Ecola de Estudos Orientais de Londres.

Casou, em 1972, com o britânico Michael Aris, universitério especialista em Tibete e Budismo, com quem teve 2 filhos.

Em 1988, devido a problemas de saúde que levaram à morte de sua mãe, regressou à Birmânia, regresso esse que coincide com a eclosão de uma revolta popular espontânea contra 26 anos de repressão política e regressão económia do país. Nesse mesmo ano, como consequência das medidas de repressão adoptadas pelo regime birmanês, morreram 10.000 pessoas.

Nas eleições de 1990, o partido de Aung San Suu Kyi - Liga Nacional para a Democracia - obtém uma vitória esmagadora.

Esteve em prisão domiciliária desde 1989 até 1995, altura em que teve um período de "liberdade" até 2000, ano em volta a ser confinada ao seu domicílio por mais 19 meses. Presa novamente em Maio de 2003(após uma tentativa de assissanato no seu automóvel), mantém-se até hoje, em prisão domiciliária.

Em 1990 ganhou o prémo Sakharov de Liberdade de Pensamento, e m 1991 foi galardoada com o Prémio Nobel da Paz.

O regime de sanções imposto pela União Europeia e pelos Estados Unidos, há uma década, mostra-se ineficaz contra outros "gigantes" que mantém relações com a Birmânia - China, Índia e Tailândia.

Não será de mais referir que a Birmânia tem grandes fontes de energias naturais, especialmente de gáz natural!






quinta-feira, 27 de setembro de 2007

Eça de Queiróz


Já não é novidade, para alguns de vós, o meu gosto especial por Eça de Queiróz. Por isso, decidi escrever um pouco sobre o autor, e um dos seus livros, ou melhor, sobre o contexto sócio-cultural e histórico de um dos seus livros (o meu favorito) - "Os Maias".
De forma a não tornar o texto muito descritivo, farei uma breve biografia do autor e o restante texto criei-o em forma de entrevista virtual a Eça de Queiróz. Espero que gostem.

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José Maria Eça de Queiróz nasceu a 25 de Novembro de 1845, na Póvoa de Varzim. É filho de José Maria de Almeida Teixeira de Queiróz, magistrado e homem de letras, que só se casa com a mãe de Eça de Queiróz quatro anos após o seu nascimento. Estuda, como interno, no Colégio da Lapa, no Porto e é aí que se inicia nas leituras de Garrett, por influência do director, pai de Ramalho Ortigão.

Em 1861 vai para Coimbra, onde se forma em Direito, no ano de 1866. É então que conhece Antero de Quental e outros, que virão a formar a chamada "Geração de 70". Em Março de 1866 publica na "Gazeta de Portugal" o seu primeiro texto: "Notas Marginais". Juntamente com Antero de Quental, e sob influência de Baudelaire, cria a figura "satânica" de Fradique Mendes, verdadeiro duplo de Eça. Ainda em 1866 instala-se em Lisboa, na casa de seu pai, onde cria o "Grupo do Cenáculo"

Três anos depois assiste à abertura do canal do Suez e visita o Egipto e a Palestina, onde recolhe material para o romance "A Relíquia", publicado em 1887. Em Évora cria um jornal da oposição, "ODistrito de Évora". Em Julho de 1870 é nomeado administrador do concelho de Leiria, cargo que ocupa durante um ano, e cujo ambiente social é recriado em "O Crime do Padre Amaro". Escreve durante esse período, em colaboração com Ramalho Ortigão, um folhetim para o "Diário de Notícias": "O Mistério da Estrada de Sintra", cuja intriga marcadamente policial abala a tranquilidade estagnante dos leitores.

Em Novembro de 1872, parte como cônsul para o Havana, seguindo em missão oficial para os Estados Unidos. É transferido para o consulado de Newcastle, Inglaterra em Novembro de 1874, seguindo-se Bristol. Em 1883 é eleito sócio da Academia das Ciências (sem nunca lá ter ido) e casa-se com a irmã do Conde de Resende, seu amigo. Em 1888 é nomeado cônsul em Paris, concretizando assim, o sonho da sua vida, e aí permanece até à sua morte, a 17 de Agosto de 1900.

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E agora, a entrevista virtual a Eça de Queiróz, sobre o contexto sócio-cultural e histórico de "Os Maias".

Homem do Leme - Sabemos que os maiores acontecimentos da década de 70 foram: a Geração de 70 e, consequentemente, a Questão Coimbrã. Tudo começou com uma carta de Feliciano de Castilho, onde ele atacava ironicamente os dois novatos com maior influência em Coimbra - Antero de Quental e Teófilo Braga. Podia-nos contar estes acontecimentos mais detalhadamente?

Eça de Queiroz - Antes de mais queria agradecer o facto de me terem convidado a vir aqui, falar de acontecimentos tão marcantes para a minha vida e para a vida de todos os portugueses, acontecimentos esses que influenciaram homens de letras de hoje e que influenciarão homens de letras de gerações futuras. Retomando agora o assunto da nossa conversa: tal como foi dito, toda a questão Coimbrã teve início com uma carta-posfácio escrita por Castilho e editada com o "Poema da Mocidade" de Pinheiro Chagas, em 1865. Essa carta, atacava desapropriadamente, Antero de Quental e Teófilo Braga que tinham publicado respectivamente, "Odes Modernas" e "Visão dos Tempos" e que pelas ideias expressas tinham perturbado Castilho...

HL - ... entretanto, Castilho nomeia Pinheiro de Chagas para regente da cadeira de Literatura Moderna da Faculdade de Letras...

Eça - ... sim, sim; cargo esse que era disputado também por Antero de Quental, Teófilo Braga e Vieira de Castro. Mas é claro que Feliciano de Castilho se opôs a todos estes candidatos, alegando que era necessário pôr fim à desorientação presente na língua portuguesa. É então que Antero de Quental escreve uma carta, conhecida pelo nome de "Bom Senso e Bom Gosto", onde insulta violentamente o velho Castilho.

HL - Mas nesta luta de Antero e Castilho, como em todas as lutas, existiam apoiantes de ambas as partes...

Eça - ... é claro. Antero era apoiado por Teófilo Braga, Oliveira Martins e por mim, entre outros. Ao lado de Castilho aparecem Pinheiro Chagas e Camilo. A juventude apoiante de Antero ficou conhecida por Geração de 70 e toda esta questão por Questão Coimbrã.

HL - Há quem diga que a geração de 70 corresponde a um "terceiro romantismo". Concorda com esta afirmação?

Eça - Concordo. Se se considerar Herculano e Garrett como o "primeiro romantismo"e António Feliciano de Castilho como o "segundo romantismo", então nós somos o "terceiro romantismo".

HL- Terceiro romantismo esse que se opõe ao segundo romantismo...

Eça- ...é claro, pois se Antero e Castilho são opositores, logo os romantismos por eles defendidos também se opõem!

HL - Apesar do terceiro romantismo adoptar, de certo modo, as ideias políticas e culturais do romantismo de Garrett, as suas influências ideológicas são bastante diferentes.

Eça - Sim. A nossa ideologia é influenciada por Hegel, Marx, e outros; a nível de elementos estéticos, os mais marcantes são o realismo e o naturalismo de Zola e de Flaubert,estes últimos que consistem em...

HL - Sr. Eça, deesculpe interrompê-lo, mas gostaria de lhe pedir que guardasse esse tema do Naturalismo e do Realismo para daqui a pouco, pois é um tema que também aqui vamos desenvolver. Mas agora gostaria de lhe fazer uma outra pergunta, se não se importa...

Eça - Não, de maneira nenhuma. Sabe como é, são tão raras as oportunidades de se fazer história completa, que nos deixamos levar pelo entusiasmo. Mas continue...

HL - A próxima questão é a seguinte: O Sr. fez parte da sociedade "inter-amicos", os Vencidos da Vida, formada em Lisboa no ano de 1887/88. Qual a finalidade desta sociedade?

Eça - Os Vencidos da Vida era um grupo de personalidades de relevo na vida literária (isto só cá para nós, de grandes personalidades!). A ideia partiu de Ramalho Ortigão e tinha como objectivo juntar colegas que outrora tinham pertencido à Geração de 70.

HL - Isso quer dizer que os assuntos discutidos em tais reuniões eram uma continuação da Questão Coimbrã?

Eça - Não propriamente, pois a questão Coimbrã foi mais uma questão literária e a manifestação dos Vencidos era uma atitude de protesto perante a vida portuguesa. É claro que a nossa manifestação, era a manifestação do espírito de reforma, inaugurada com a questão Coimbrã, simbolizando o objectivo aristocrático e intelectual do movimento da Geração de 70, que em conflito com as leis regentes do constitucionalismo tornou-se um pessimismo irónico e elegante. Talvez nós (os vencidos) não tenhamos sido uma continuação da questão Coimbrã, mas sim uma evolução da mesma. É também nesta fase que eu, Antero de Quental e Oliveira Martins renunciamos à acção política, surgindo assim o socialismo utópico.

HL - Agora sim, vamos falar do Naturalismo e do Realismo. O período do realismo teve início com a questão Coimbrã. Posteriormente aparecem as conferências do Casino. No que é que consistiam essas conferências?

Eça - A ideia partiu de Antero de Quantal, com a finalidade de unir os adeptos das novas ideias, que tinham sido colegas em Coimbra. Essa conferências permitiam-nos discutir (e essa é que era a sua verdadeira finalidade) as questões contemporâneas: religiosas, políticas, sociais e científicas.

HL - Por isso elas eram chamadas de "livres, democráticas e científicas"...

Eça - Sim, pois elas tornaram-se num meio de propaganda aberta de um ideal revolucionário para a transformação social, moral e política dos povos.

HL - Toda a base destas conferências poder-se-á chamar de dupla, uma vez que se baseiam nas ciências humanas despertadas ao nível desta geração e nas ciências políticas consciencializadas pela geração anterior. Concorda?

Eça - Sim, concordo. Senão vejamos as preocupações dos conferencistas de 71:
1.º - Ligar Portugal ao movimento moderno
2.º - Agitar, na opinião pública, as grandes questões da filosofia e da ciência modernas
3.º - Estudar todas as ideias e todas as correntes do século
4.º - Adquirir a consciência dos factos que nos rodeiam na Europa.

HL - É todo esse interesse pela realidade e pela análise social que caracteriza o realismo.

Eça - Ideologicamente falando é, pois o Realismo opõe-se ao Idealismo, ou seja, ao Romantismo, com toda a sua formalidade e sentimentalismo. O Realismo não é nada disso, pelo contrário, ele é anti-idealista; o Realismo quer observar os factos e analisá-los rigorosamente.

HL - E quais os temas de interesse dos realistas?

Eça - Os realistas preocupavam-se em exteriorizar a vida burguesa nos seus aspectos negativos: a ambição, a avareza, a cobiça, a corrupção; representavam também a vida urbana, pois é nas grandes cidades que mais se fazem sentir as tensões sociais, políticas e económicas.

HL - Sendo assim, os realistas procuram mostrar o sofrimento social e moral da frustração, da corrupção e do vício.
Eça - Sim, absolutamente. De um modo geral, o realismo denuncia e analisa criticamente os vícios da sociedade.
HL - O período que se segue ao Realismo é o Naturalismo. Ideologicamente, o Naturalismo é influênciado pela ciência e pela filosofia do século XIX, destacando-se o positivismo de Auguste Comte, onde o importante é analisar vigorosamente os factos e as suas causas. O Determinismo, pensamento relacionado com o Positivismo, também é importante pois preocupa-se mais com as causas dos fenómenos, do que com os fenómenos propriamente ditos. Tematicamente, quais as principais preocupações dos Naturalistas?
Eça - Os temas fundamentais dos Naturalistas são: o alcoolismo como deformação social; o jogo como consequência de determinadas situações de injustiça; o adultério como resultante de uma educação romântica errada; a opressão social como resultante de interesses económicos, políticos e sociais.

HL - Agora gostava que explica-se onde é que tudo isto se aplica em "Os Maias".
Eça - Para fazer essa explicação, vamos por partes: No capítulo VI, durante a discussão entre Alencar e Ega, no Hotel Central, está presente a oposição das duas correntes literárias (Realismo versus Romantismo), e a sua caracterização:
"Craft não admitia também o naturalismo, a realidade feia das coisas e da sociedade estatelada nua num livro.(...)
(...) Ega, horrorizado, apertava as mãos na cabeça - quando do outro lado Carlos declarou que o mais intolerável no realismo eram os seus grandes ares científicos, a sua pretensiosa estética deduzida de uma filosofia alheia, e a invocação de Claude Bernard, do experimentalismo, do positivismo, de Stuart Mill e de Darwin, a propósito de uma lavadeira que dorme com um carpinteiro!" (Os Maias)

HL - Também se pode interpretar essa discussão como o simbolizar da questão Coimbrã?


Eça - Sim, nesse caso Alencar, que defende o Romantismo, corresponde a Castilho, e Ega,
defensor das teorias naturalistas, simboliza Antero.


HL - As conferências do Casino também estão presentes neste romance?

Eça - Estão, no capítuo IV, onde se relata todo o ambiente nocturno nos Paços de Celas, e onde se discutia a Arte, o Positivismo, o Realismo e outros assuntos relacionados com o Naturalismo.

"Os Paços de Celas, sob a sua aparência preguiçosa e campestre, tornaram-se uma fornalha de actividades. No quintal fazia-se uma ginástica científica. Uma velha cozinha fora convertida em sala de armas - porque naquele grupo a esgrima passava como uma necessiade social. À noite, na sala de jantar, moços sérios faziam um wist sério: e no salão, sob o lustre de cristal, com o Fígaro, o Times e as revistas de Paris e de Londres espalhadas pelas mesas, o Gamacho ao piano tocava Chopin e Mozart, os literatos estirados pelas poltronas - havia ruídosos e ardentes cavacos, em que a Democracia, a Arte, o Positivismo, o Realismo, o Papado, Bismarck, o Amor, Hugo e a Evolução, tudo por seu turno flamejava no fumo do tabaco, tudo tão ligeiro e vago como o fumo. E as discussões metafísicas, as próprias certezas revolucionárias adquiriram um sabor mais requintado com a presença do criado de farda desarrolhando a cerveja, ou servindo croquetes." (Os Maias)

HL - Sr. Eça, o sr. não manifesta a sua discordância com o Romantismo neste romance?

Eça - Mas é claro que sim! E faço-o no capítulo III através de Afonso da Maia, na sua conversa com o abade.

"(...) Mas enfim os clássicos - arriscou timidamente o abade.
- Qual clássicos! O primeiro dever do homem é viver. E para isso é necessário ser são, e ser forte. Toda a educação sensata consiste nisto :criar a saúde, a força e os seus hábitos, desenvolver exclusivamente o animal, armá-lo de uma grande superioridade física, Tal qual como se não tivesse alma. A alma vem depois .... A alma é outro luxo. É um luxo de gente grande...
O abade coçava a cabeça, com o ar arrepiado.
- A instruçãozinha é necessária - disse ele. - Você não acha, Vilaça? Que Vossa Excelência, Sr. Afondo da Maia, tem visto mais mundo do que eu... Mas enfim a instruçãozinha...
- A instrução para uma criança não é recitar Tityre, tu patulae recubans... É saber factos, noções, coisas úteis, coisas práticas..." (Os Maias)

HL - E a fase dos vencidos da vida, onde é que se situa?

Eça - Essa fase está no último capítulo, quando Carlos, após 10 anos de permanência por terras francesas volta a Lisboa e encontra tudo na mesma, é a desilusão, a tomada de consciência de que a sua luta foi em vão.

"(...) E Carlos reconhecia, escostados às mesmas portas, sujeitos que lá deixara havia dez anos, já assim encostados, já assim melancólicos. (...)
- Falhámos a vida, menino!
- Creio que sim... Mas todo o mundo mais ou menos a falha. Isto é, falha-se sempre na realidade aquela vida que se planeou com a imaginação. Diz-se: "Vou ser assim, porque a beleza está em ser assim." E nunca se é assim, é-se invariavelmente assado, como dizia o pobre marquês. (...) Com efeito, não vale a pena fazer um esforço, correr com ânsia para coisa alguma.
Ega, ao lado, ajuntava, ofegante, atirando as pernas magras:
- Nem para o amor, nem para a glória, nem para o dinheiro, nem para o poder...
A lanterna vermelha do americano, ao longe, no escuro, parara. E foi em Carlos e em João da Ega uma esperança, outro esforço:
-Ainda o apanhamos! (...)" (Os Maias)

HL - Obrigado, por esta lição de literatura!


Birmânia


A Rússia considera a crise como um "assunto interno".
A China recusa condenar ataques a monges budistas.

E NÓS???? Mais uma vez indiferentes? Com agendas demasiado ocupadas? Espero que não!



Fotos de www.paraviajar.net

terça-feira, 25 de setembro de 2007

O teatro da vida ou como se morre no fim de cada acto

Luzes, música, acção!
A peça vai começar.
-"Um poeta, por favor!... Para declamar..."
Pode ser o Viegas...
Esperem,... calem a música, apaguem as luzes... O Viegas não pode ser! Esse já é livre... Tem de ser um preso... Um preso como eu... Algemado à vida.
Acendam as luzes! Ponham a música a tocar! Na assistência não quero ninguém. Só rosas... rosas vermelhas... da cor da vida que em breve cobrirá este palco.
Este palco... é a minha morte, aquela que desde sempre construí, com amor, com garra, com luta, com paixão. Este palco é toda a minha vida.
Calem a música. Iluminem o palco. Esta vida á qual ponho fim foi feliz. Por isso tem de acabar enquanto ainda há felicidade. A morte que construo desde que nasci, é livre! LIVRE! ouviram? Vou-me matar?! Não, apenas vou finalizar a grande construção da vida. Sim, sinto-me livre. Não posso mais viver, a vida prende-me, agarra-me. Agora, vou começar livremente a viver.
Chegou a hora? Não sei! Dentro de segundos já me matei - já não sou a que agora penso ser. Sou livre de escolher, de ser quem quiser, amar ou morrer.
Adeus, ou... até ao próximo acto
Cai o pano

(Homem do Leme - 29/08/1997)

POETA

Poeta é o que sofre
Não como toda a gente
Mas como só ele sabe sofrer
Sofre de alegria
Sofre de tristeza
Sofre, porque sofrer é ser.
Poeta é o que sente
O que sente profundo
O que sente sentido.
Poeta é o que olha e vê
Vê, não o que vê, mas o que não vê.
Poeta é o que olha um pássaro
e vê liberdade
O que olha o Tejo
e vê solidão
Poeta é o que sente o que sofre
e sofre o que sente
Poeta é aqule que sonha com o que sofre
Olhando o que não vê.
Poeta... sou eu!


(Homem do Leme)

EU

A vida é complicada
Nunca completa
Nunca acabada
É uma busca constante
Por algo desconhecido
É a procura incessante
De algo nunca sentido
Uns chamam-lhe razão
Outros felicidade
Para uns é paixão
Para outros crueldade
Mas enquanto procuro
Esse algo meu
Prefiro chamar-lhe
Simplesmente - "Eu"
(Homem do Leme)

sábado, 15 de setembro de 2007

Bons momentos para recordar

FESTIVAL DO MARISCO/2007 - OLHÃO



Negras como a noite

Só mesmo o Tim para escrever e interpretar uma música assim... é tão linda!!!





Com mãos de veludo
Negras como a noite
Tu deste-me tudo
E eu parti

Um homem trabalha
Do outro lado do rio
Com as suas duas mãos
Repara um navio
Está sózinho e triste
Mas tem de aguentar
Já falta tão pouco
Para poder voltar

Vai ficar tudo bem
Isso eu sei
Vai ficar tudo bem
Isso eu sei
Quando o sol
Se juntar ao mar
E eu te voltar a beijar
Só mais uma vez, só mais uma vez
Só maios uma vez, só mais esta vez

Com adeus começa
Outro dia igual
Ficou a promessa
Escondida no lençol
Negras como a noite
Vindas de outra terra
As mãos de veludo
Estão à sua espera

Vai ficar tudo bem
Isso eu sei
Vai ficar tudo bem
Isso eu sei
Quando o sol
Se juntar ao mar
E eu te voltar a beijar
Só mais uma vez, só mais uma vez
Só mais uma, só mais esta vez

(Tim/Xutos e Pontapés)

quarta-feira, 12 de setembro de 2007

BEM VINDO DALAI LAMA


Bem vindo.
Continuo a acreditar que um dia, a causa tibetana, superará os interesses económicos e políticos. Um dia...

sábado, 8 de setembro de 2007

DALAI-LAMA EM PORTUGAL

ESTOU INDIGNADA!!!

Mais uma vez o nosso país me desilude- já devia estar habituada, mas parece que não estou.

Como é do conhecimento de todos, e já publicitei aqui, o Dalai-Lama vem a Portugal para a semana, para um círculo de conferências budistas e espirituais. Para mim é, ou devia ser, um motivo de orgulho ter no meu país o líder espiritual que admiro. Então o que é que me indigna? A hipocrisia dos nossos dirigentes políticos, a falta de coragem da classe política que nos governa e que escolhemos como nossos representantes.

Hoje ouvi o nosso Ministro dos Negócios Estrangeiros dizer que o Dalai-Lama não será recebido oficialmente "como é óbvio". Óbvio para quem? Para a hipocrisia política, para o poder económico, que tudo colocam acima do direito à liberdade. Os tibetanos foram obrigados ao exílio após a invasão chinesa, o Dalai-Lama, líder político e espiritual do seu país - o Tibete - teve de se exilar na Índia para poder professar a filosofia de vida que é o budismo e poder lutar pelo direito à independência do território livre que foi ocupado, violado e profanado no seu íntimo.

O "óbvio" do nosso ministro para mim traduz-se em cobardia - já vi terroristas sob a capa de líderes políticos, serem recebidos no nosso país com honras de estado, e pela segunda vez, o líder espiritual budista, vem ao nosso país e não é recebido oficialmente!!! Acima de tudo, o Dalai-Lama é um líder espiritual que luta pelo seu povo e pela sua independência e não um líder político a chafurdar na hipocrisia do poder e dos interesses.

Não é recebido oficialmente, mas é recebido nos nossos corações com todo o amor, paz e compaixão. Para ele é o suficiente.

Ainda estou à espera de ver uma mobilização pública pela independência do Tibete, e ver as organizações defensoras dos direitos do Homem, as associações humanitárias e afins acordarem para o problema tibetano.

BEM VINDO DALAI-LAMA







"Só existem dois dias no ano em que nada pode ser feito.

Um chama-se Ontem e o outro chama-se Amanhã.

Portanto, Hoje é o dia certo para amar, acreditar, fazer e, principalmente, viver"

(Dalai-Lama)

Estou orgulhosa

Há coisas que nos fazem sentir orgulhosos. E eu confesso, estou orgulhosa da miúda que vêem no vídeo a receber o prémio. Miúda, é como quem diz, porque a rapariga que aí vêem já não é miúda nenhuma, mas sim uma bela mulher! E orgulhosa porquê? Porque para além de ser minha amiga, filha de amigos meus, também a ajudei a criar. É verdade, esperei muitas vezes pela carrinha do infantário, fiquei com ela à noite (enquanto os pais, professores, davam aulas), contei-lhe histórias, dei-lhe banho -era a fase mais engraçada do dia, o banho e lavar a cabeça - uma verdadeira aventura aquática!!!

É por isso que me sinto orgulhosa, porque brinquei com ela, lhe peguei ao colo, a adormeci, e agora vejo a vencer!

Que tenhas sempre muito sucesso na vida.


III Festival de Vídeo Jovem de Sintra

O FILME VENCEDOR





A REPRESENTANTE DO FILME VENCEDOR

sexta-feira, 31 de agosto de 2007

30 de Agosto de 2007

Como é do conhecimento de muitos de vós, ontem fiz 34 anos. Eu sei que não se esqueçeram, e como bons amigos e amigas que são, mimaram-me com telefonemas surpresa - e é sempre tão bom ouvir a voz das pessoas de quem gostamos - e com mensagens, para o telemóvel ou via net - e também é bom ler as palavras que nos dedicam.

Enfim, depois de um dia passado em família, com algumas e boas prendas e o tradicional bolo de aniversário, eis que chega a hora de partir, rumo a Viseu, para ver mais uma vez, os Xutos e Pontapés ao vivo. Desta vez, partilhando o meu dia, ou melhor, o final da noite, de aniversário com a minha banda de culto, com aqueles que admiro e sigo há 20 anos.


E assim foi... indo eu, indo eu, a caminho de Viseu... lá cheguei e encontrei outros como eu, que fazemos quilómetros para ver a maior banda de rock portuguesa, que vibramos nas grades ao som das guitarras do Zé Pedro e do João Cabeleira, que acertamos os nossos corações pelas batidas do Kalú, nos deixamos embalar pela voz do Tim, ao som do sax do Gui.

Bem, chega de palavras, aqui deixo algumas imagens que captei...








segunda-feira, 27 de agosto de 2007

Cântico Negro

Partilho convosco um poema com o qual me identifico completamente.

Vem por aqui!
Dizem-me alguns com olhos doces,
Estendendo-me os braços e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem:- Vem por aqui!

Eu olho-os com olhos lassos...
Há nos meus olhos ironias e cansaços,
E cruzo os braços, e nunca vim por ali.

A minha glória é esta:
Criar desumanidade, não acompanhar ninguém...
Que eu vivo com o mesmo sem vaidade
Com que rasguei o ventre a minha mãe.

Não, Não vou por aí!
Só vou por onde me levam meus próprios passos,
Se ao que busco saber, nenhum de vós responde,
Porque me repetis:- Vem por aqui!

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhos aos ventos,
Como farrapos arrastar os pés sangrentos...
- A ir por aí!

Se vim ao mundo...
Foi só para desflorar florestas virgens
O mais que faço, não vale nada.

Como pois sereis vós!
Que me dareis impulsos, ferramentas, e coragem,
Para eu derrubar os meus obstáculos.
Corre nas nossas veias
Sangue velho dos avós,
- E vós amais o que é belo
Eu amo o longe e a miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos.

Ide!
Tendes estradas, tendes jardins , tendes canteiros
Tendes pátrias e tendes tectos,
E tendes regras e tratados, filósofos e sábios
- Eu tenho a minha loucura!
Levanto-a como um facho a arder na noite escura
E sinto espuma e sangue
E cânticos nos lábios.

Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém.
-Todos tiveram pai, todos tiveram mãe,
Mas eu, que nunca principío nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah! que ninguém me dê piedosas intenções
Ninguém me peça definições,
Ninguém me diga: - Vem por aqui!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou.´
É um átomo a mais que se animou,

Não sei por onde vou, não sei para onde vou:
- Sei que não vou por aí!

(José Régio)

domingo, 26 de agosto de 2007

As Mãos


Mãos que trabalham
Para alimentar o Mundo

Mãos que lutam
Para serem alguém

Mãos que falam, que gritam
Que roubam e matam
Na luta da vida

Mãos que amam, acariciam
Beijam e adormecem

Mãos com vida
Vida nas mãos

E as minhas mãos
Que lutam na vida
Têm a vida adormecida
Por não te poderem tocar!
(Homem do Leme)

quarta-feira, 22 de agosto de 2007

Casal Ventoso



"A Voz do Mal"

Sei que te queres esconder
Sei que me queres deixar
Vais ter muito que correr
Sabes que te vou achar

Na aldeia mais distante
Acabarei por te encontrar
Esperarei por um sinal
Da tua sombra ao passar
Á luz da lua
A voz do mal

Uma rua mais sombria
O cenário habitual
Uma noite vazia
Mudares o teu final
Para acabar tudo de vez

Tu vais ter que me matar
Eu ficarei para sempre em ti
Esse remorso fatal
Desconheço a voz de Deus
Só conheço a voz do mal
Desconheço a voz de Deus
Só conheço a voz do mal

(Tim/Xutos e Pontapés)


Hoje, ia a caminho do trabalho e ouvi esta música no meu mp3. De imediato vieram-me à mente imagens de um tempo passado, que deixou marcas em mim e me tornou na pessoa que sou hoje - o tempo em que trabalhei no Casal Ventoso.

É verdade, em 1998 eu trabalhava no Casal Ventoso, como voluntária - fui para esse bairro porque queria trabalhar lá, foi uma escolha minha. E não me arrependo, bem pelo contrário, voltaria. Era outro mundo, outra realidade, que começava na Meia-Laranja e acabava ao fundo da Rua Arco do Carvalhão. Muito próximo fica o Cemitério dos Prazeres - sempre achei irónico...

Percorri quilómetros naquele bairro, a pôr em prática o que o curso de terapeuta de toxicodependentes me tinha ensinado e o que o Curso de Psicologia me ia ensinando... mas não há teoria que sobreviva, não há saber que resista, se não formos aquilo que aquelas pessoas procuravam em nós - sermos pessoas, sermos humanos...

Passava os dias naquelas ruas, com os toxicodependentes, e quando regressava a casa, muitas vezes chorei de revolta, de impotência, de desespero por aquilo que via, mas regressava sempre com o coração cheio.

Vi muitas coisas, que ainda hoje não me parecem reais, vi partos no meio da rua, de mulheres que não sabiam que estavam grávidas e julgavam estar a sofrer as dores da ressaca, vi crianças de 10 anos a consumir heroína, vi gente a morrer, vi mortos, vi corpos que se arrastavam sem consciência que ainda viviam... mas também vi olhares de esperança, lágrimas de gratidão, pais à procura de filhos, filhos a encontrar os pais, acima de tudo, vi PESSOAS.

Ouvi histórias inacreditáveis, conheci vidas impensáveis, vivi tempos indescritíveis...

Mas foi enquanto lá trabalhava, que mais aprendi sobre o ser humano, que mais cresci... Foi lá que conheci as pessoas mais bonitas que conheci até hoje...

Para lá do toxicodependente, da degradação que todos viam e a que todos viravam a cara, eu vi, eu conheci, pessoas com uma enorme capacidade de amar, em sofrimento, a pedir ajuda, a pedir apenas uma palavra amiga ou um sorriso... Pessoas a quem um dia faltou algo que a droga preencheu...

Adorei o trabalho que fiz... Voltaria a fazer tudo outra vez...

domingo, 19 de agosto de 2007

"EQUADOR" - Miguel Sousa Tavares



Foi com esta história, comovente, perturbadora e sensual, que Miguel Sousa Tavares iniciou a sua caminhada pelo romance.


Equador é a história de Luís Bernardo, sócio principal da Companhia Insular de Navegação, 37 anos, solteiro e dado a aventuras de saias, que numa manhã chuvosa de Dezembro de 1905 parte de Lisboa, rumo a Vila Viçosa para um encontro com El-Rei D. Carlos.


Quando partiu não sabia, nem imaginava que o esperava algo que o levaria a trocar a sua vida despreocupada, por uma missão patriótica, mas arriscada, na longínqua ilha de S. Tomé.


Ao aceitar o cargo de governador, assumiu também a defesa da dignidade dos trabalhadores das roças, vendo-se por isso, no seio de uma rede de conflitos de interesses com a metrópole.


Luís Bernardo é um homem apaixonado pela sua luta, pela sua causa e defende-as até ao fim, sem temer as consequências da justiça e da igualdade que procura para os trabalhadores das roças.


O que Luís Bernardo não sabe, é que é também em S. Tomé que vai conhecer a paixão e o amor. A descoberta do amor que lhe vai mudar a vida. Num estilo queirosiano, Luís Bernardo envolve-se numa paixão quente e sensual com Ann, mulher de David, cônsul inglês, que está em S. Tomé devido a erros cometidos no passado, na Índia.


Enquanto vive a luta ao lado dos trabalhadores das roças, Luís Bernardo vive também o seu amor, na ambiguidade do desejo e da culpa, do prazer e da traição.


Uma história envolvente, que nos prende desde a primeira página, retratando os últimos dias da monarquia portuguesa, entre os serões mundanos da capital e o ambiente retrógado das colónias.


O fim... esse deixo para quem ler o livro...

quarta-feira, 8 de agosto de 2007

Dois momentos de poesia ...

SE TU FOSSES...

Se tu fosses o mar
Eu seria uma praia
Onde virias em cada momento
Com o teu corpo embalado pelo vento
Tocar o meu, muito de leve
Como se dos cabelos de um anjo se tratasse
Depois envolver-me-ias na espuma das tuas ondas
E contigo navegaria em oceanos desconhecidos

Se tu fosses uma flor
Eu seria um pássaro
Leve e pequenino - tal qual um beija-flor
E quando me alimentasse do teu pólen
Não o faria, mas antes
Envolver-te.ia com as minhas asas
Beijar-te-ia e enlaçados num amor mágico
Levava-te comigo e voaríamos
Num bailado de amantes alados

Se tu fosses o Sol
Eu queria ser a Lua
Para que eternamente
Na magia da noite ou na beleza do dia
Brincassemos, sem ninguém perceber
Nos amássemos em segredo
E de seguida repousassemos
No leito da cumplicidade




NA ALQUIMIA DA VIDA...

Na alquimia das letras
Descobri as tuas palavras
Profundas e sentidas
Leves e divertidas
Trocadas com prazer

Na alquimia dos sons
Ouvi a tua voz
Melodia suave
Como o toque de um amante
Que embala os momentos partilhados

Na alquimia dos sentidos
Cruzei o teu olhar
Intensidade enebriante
Que sem palavras me diz
Que posso confiar
Vi o teu sorriso
Tímido e sedutor
Que me faz viajar
Num universo calmo
Numa galáxia de ternura

Na alquimia das emoções
Encontrei a tua amizade
Sentimento forte e profundo
Sensações envolventes
Onde me perco sem culpa
Onde navego sem rumo
Com a certeza que me levarás
De regresso a porto seguro

(Homem do Leme)

quarta-feira, 1 de agosto de 2007

Circo de Feras

Aqui vos deixo mais uma música de que gosto tanto:

A vida vai torta
Jamais se endireita
O azar persegue
Esconde-se à espreita

Nunca dei um passo
Que fosse o correcto
Eu nunca fiz nada
Que batesse certo

E enquanto esperava
No fundo da rua
Pensava em ti
E em que sorte era a tua
Quero-te tanto
Quero-te tanto

De modo que a vida
É um circo de feras
E os entretantos
São as minhas esperas

E enquanto esperava
No fundo da rua
Pensava em ti
E em que sorte era a tua
Quero-te tanto
Quero-te tanto

quarta-feira, 25 de julho de 2007

Esta Lisboa que eu Amo













wecry.free.fr










viajar.clix.ptfotosffoto.phpf=578&l=300

A vós...

Ao longo da vida, todos nós nos cruzamos com imensas pessoas, pessoas que vêm e vão, que nos ensinam, tratam, castigam, mimam, odeiam, adoram, mas todas elas com algo em comum - são pessoas que nos marcam, que marcam a nossa vida. E entre tantas pessoas, entre tantas idas e vindas, há aquelas que ficam, que imprimem em nós a impressão digital da sua presença, mesmo quando fisicamente ausentes. São pessoas cuja lembrança nos preenche a alma, cujas palavras nos embalam o coração, cujo sorriso nos faz acreditar.

Por vezes, muitas vezes, quase sempre, nos esquecemos de dizer a essas pessoas "Gosto de ti" ou "És um(a) bom (a) amigo(a)". Se calhar não nos esquecemos, se calhar pensamos que não vale a pena, que não é preciso. Eu acho que é! É preciso dizer às pessoas de quem gostamos, o quanto gostamos delas, como a sua existência na nossa vida é importante.

A todos vós, aos que me atendem sempre os telefonemas, aos que comigo partilham mensagens, àqueles que nunca dão notícias, aos que estão sempre presentes, aos que aparecem quando e onde menos espero, ....
Obrigado pelos bons momentos, gosto de vocês!

terça-feira, 17 de julho de 2007

Natascha Kampusch - A rapariga da cave






No dia 23 de Agosto de 2006, o Mundo falava de Natascha Kampusch. A menina que tinha sido raptada aos 10 anos, a caminho da escola e de quem nunca mais se conheceu o rasto. A jovem que aos 18 anos fugiu do seu raptor para dar a conhecer a sua história de 8 anos de cativeiro.

Natascha Kampusch fugiu do seu raptor enquanto lhe lavava e aspirava o carro. O telemóvel dele tocou e os breves momentos de distração com a conversa foram suficientes para permitir a Natascha terminar com o seu cativeiro. Durante 8 anos vivera numa cave, num único quarto, de dimensões muito reduzidas, com uma única pessoa - o seu raptor, que se suicidou poucas horas após a fuga do seu "troféu".

Alguns dias depois, Natascha dá uma entrevista à televisão austríaca, onde a sua imagem perante o público é bastante alterada - a vítima que todos esperavam ver, as histórias horrendas que todos esperavam ouvir não correspondem ao que se passa diante dos seus olhos, no écran da televisão. Natascha Kampusch recusa-se a falar de pormenores sobre a sua vida, ao longo dos 8 anos em que viveu confinada. Quando lhe perguntam se foi vítima de abusos sexuais refere que não vai responder a questões que só pertencem à sua intimidade e que tudo o que aconteceu entre ela e o Sr. Priklopil (o seu raptor) implicou sempre consentimento.

O Mundo questionava: quem era afinal aquela jovem, que chorava a morte do seu carcereiro, querendo preservar a sua imagem dos olhares indiscretos?

Muitas questões surgiram; falou-se do seu papel dominador na relação com o raptor, na possibilidade de o rapto ter sido algo mais que isso, falou-se da possível cumplicidade de familiares de Natascha, principalmente da sua mãe.

Sobre todas estas hipóteses, os jornalistas Allan Hall e Michael Leidig, escreveram o livro intitulado "Natascha Kampusch - A rapariga da cave". Não pretende responder às questões por nós colocadas, mas sim dar a conhecer o resultado de uma investigação jornalística séria, tentando desvelar algumas questões sobre a vida de Natascha antes, durante e após o seu rapto.

Não condena nem iliba ninguém, relata os factos apurados, revelando ao longo das suas páginas o perfil de raptor e raptada.

Um livro bem escrito, que em vez de respostas, levanta questões, num caso real com tanto ainda por revelar. E será que deverá ser revelado, ou tal como diz Natascha Kampusch, pertence a uma esfera pessoal?

Leiam e tiram as vossas conclusões.

A editora é a DIFEL, de cujo site retirei a foto da capa do livro (www.difel.pt)

"Não Sou o Único" - a biografia do Zé Pedro - Helena Reis

Foto retirada do site Oficial dos Xutos e Pontapés - http://www.xutos.pt

Já li. Estava à espera de me conseguir distanciar emocionalmente para comentar. Mas é impossível distanciar-me do que gosto, e eu gosto dos Xutos, gosto do Zé Pedro.

O livro está muito bem conseguido, dá-nos a conhecer a vida para lá dos palcos daquele que nos habituámos a ver em cima de um, de guitarra em riste, fazendo dela a sua arma, contra a indiferença. Mostra-nos o Zé Pedro, homem , irmão, companheiro, filho. Não só o músico que todos conhecemos e admiramos, mas o menino que gostava de ouvir rádio, o jovem que tinha sonhos e o homem que acredita, que ainda ousa sonhar. O homem que sonhou, amou, que desafiou os limites, que sobreviveu. Basta olhar nos seus olhos para ver que é possível acreditar, que vale a pena viver, que é sempre tempo de sonhar.

Só as árvores mais fortes suportam as piores tempestades.

Obrigado Helena Reis, pelo retrato de um irmão que merece.

Obrigado Zé Pedro, pela coragem, pela frontalidade, pela sinceridade, pela lição de vida.

Tenho orgulho em ti e em ser tua fã.

quinta-feira, 12 de julho de 2007

Homem do Leme

Duas versões da minha música. Linda, única!!!
XUTOS PARA SEMPRE





terça-feira, 10 de julho de 2007

S.S. Dalai-Lama em Portugal (pela segunda vez)


S. S. Dalai-Lama vai estar em Portugal de 13 a 16 de Setembro.


De 13 a 15 de Setembro - 3 dias de ensinamentos públicos no Anfiteatro da Faculdade de Medicina Dentária - Lisboa


Ddia 16 - Conferência Pública no Pavilhão Atlântico, Lisboa. Para esta conferência existem bilhetes a 10 euros.


Para mais informações consultar:





sábado, 7 de julho de 2007

PORQUÊ OS XUTOS?


Há uns dias atrás perguntaram-me "Porque é que gostas assim tanto de Xutos?"


Porquê? - fiquei eu a pensar. Gosto porque gosto, porque me identifico com as músicas. Mas fiquei a pensar.


Comecei a ouvir Xutos aos 13 anos, com o àlbum Circo de Feras. A culpa foi da minha mãe, que gostava muito dos Contentores. É caso para dizer que comecei, gostei e nunca mais parei.


Na adolescência, tentava imitar os Xutos em tudo o que podia - nos ténis iguais ao Tim, nos adereços do Zé Pedro, o brinco com a cruz igual ao Kalú, as roupas pretas, as t-shirts dos Xutos, os lenços nos pulsos e ao pescoço, e até os blusões iguais aos do João Cabeleira (já bem "crescidinha" paguei bem por um blusão comprado na Gardénia, igual a um do João - ainda o tenho, bem como os lenços e outras peças que faziam parte da indumentária).


Porquê? Porque esta era a minha identidade, porque quando olhavam para mim, as pessoas sabiam que eu era fã de Xutos - e a identidade, ou a busca dela - é algo muito importante na adolescência.


À medida que o tempo foi passando, fui alterando o meu aspecto exterior, quer por crescimento pessoal, quer por imposições laborais, mas continuei a comprar os discos, a ouvir a música, a seguir a banda, a ir a concertos.


Hoje, não consigo falar de mim, da minha experiência de vida, do meu crescimento, sem falar dos Xutos e Pontapés.


Porquê? Porque eles fazem parte da minha história de vida, do meu crescimento. Posso dizer que sempre estiveram presentes, através das suas músicas. Animaram muitos bons momentos, foram música de fundo em despedidas, as suas letras serviram muitas vezes para dizer o que sentia, nos maus momentos fui muitas vezes buscar forças ao Homem do Leme, ao Remar Remar, ao Não sou o Único, ao Morte Lenta e tantas outras.


Por isso respondo: Gosto de Xutos, porque são únicos, especiais, porque me ajudaram a crescer.


E é por tudo isto e pelo que são, pelo que já passaram e ultrapassaram, que hoje, aos 33 anos, me sinto orgulhosa em ser sua Fã.

sábado, 23 de junho de 2007

TIBETE - Pela Independência

O Tibete é uma região na Ásia, que hoje é, pela maior parte, coberta pela Região Autónoma do Tibete, da República Popular da China. Tem uma área de, aproximadamente, 1,2 milhões de Km2.

Mas nem sempre foi assim. O Tibete já foi independente. A sua história começa em 127 a. c., quando uma dinastia militar se fixou no vale de Yarlung, reinando cerca de 800 anos. Foram séculos dedicados a campanhas militares, que em 617 d. c., o imperador Songtsen Gampo (33.º rei do Tibete) decide transformar num império mais pacífico: criou o alfabeto tibetano, definiu o sistema legal tibetano, baseado no princípio moral que já mencionava a importância da protecção do ambiente e da natureza, foi o impulsionador do Budismo e construiu vários templos.

A partir do século VII, o Tibete torna-se o centro do Lamaísmo, religião originária do Budismo, transformando-se assim, num poderoso reinado. No Século XVII é declarado território soberano da China, mas os tibetanos lutaram sempre pela sua independência, conseguida em 1912.

No entanto, os chineses, que sempre cobiçaram aquela região, aquando o regime comunista, voltam a invadir e anexar o Tibete, em 1950, como província. Em 1959, a oposição tibetana éderrotada e o seu líder político e espiritual, o 14.º Dalai-Lama Tenzin Gyatso, retira-se para o norte da Índia, onde instala um governo, no exílio. Desde então, 85.000 tibetanos fugiram do seu país.

Em 1965, contra a vontade dos tibetanos, o país torna-se região autónoma da China.

Entre 1987 e 1989, há fortes denúncias de violação dos direitos humanos, pelos chineses, cuja tropa comunista reprime com violência, qualquer manifestação de oposição à sua presença no território. Da ocupação chinesa resulta um genocídio cultural. Em 1989, o exército chinês massacra manifestantes na Praça da Paz Celestial, dando assim visibilidade internacional à causa da independência do Tibete.

Em 1993, o Dalai-Lama, prémio Nobel da Paz em 1989, inicia conversações com os chineses, que resultam num vazio.

A destruição da cultura tibetana e a opressão do seu povo resultou na morte de 1,2 milhões de tibetanos (um quinto da sua população) e muitos outros foram presos ou deslocados para campos de trabalho. Mais de 6000 mosteiros e templos foram destruídos.

Numa tentativa de convencer a comunidade internacional dos benefícios da ocupação chinesa, foram construídos hospitais, centrais eléctricas, escolas e estradas, que mais não são um meio para favorecer a imigração chinesa, pois os tibetanos em nada beneficiaram com estas medidas. São os chineses que ocupam todos os sectores político-económicos do Tibete, enquanto os Tibetanos são já uma minoria no seu próprio país.

Aqui ficam algumas imagens deste país que tanto me fascina:


O Dalai-Lama

Monges Budistas


Palácio de Potala


Paisagem tibetana

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