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sábado, 13 de junho de 2009

Parabéns Fernando Pessoa - 121 anos
























Tenho tanto sentimento
Que é frequente persuadir-me
De que sou sentimental,
Mas reconheço, ao medir.me,
Que tudo isso é pensamento,
Que não senti afinal.

Temos, todos que vivemos,
Uma vida que é vivida
E outra vida que é pensada,
E a única vida que temos
É essa que é vivida
Entre a verdadeira e a errada.

Qual porém a verdadeira
E qual errada, ninguém
Nos saberá explicar;
E vivemos de maneira
Que a vida que a gente tem
É a que tem que pensar.



Comemora-se hoje o 121º aniversário do nascimento de Fernando Pessoa, o grande poeta português, nascido em Lisboa em 1888.

A língua portuguesa está de parabéns!

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Bendito seja eu por tudo o que não sei...

Fernando António Nogueira Pessoa nasceu às quinze horas e vinte minutos, do dia 13 de Junho de 1888, em Lisboa, no n.º 4, do Largo de São Carlos. O pai, Joaquim de Seabra Pessoa (38 anos), era funcionário público do Ministério da Justiça e crítico musical do "Diário de Notícias" e a mãe, Maria Magdalena Pinheiro Nogueira Pessoa (26 anos), era natural da Ilha Terceira - Açores. O agregado familiar era composto, para além do próprio e de seus pais, pela avó Dionísia, doente mental e duas criadas, já idosas, Joana e Emília.

O seu nome Fernando António deve-se a Santo António, a quem a família se dizia relacionada genealogicamente. Para além desta ligação, Fernando Pessoa nasceu no dia consagrado ao padroeiro da cidade de Lisboa.

Com apenas cinco anos de idade ficou orfão de pai, que faleceu aos 43 anos, vítima de tuberculose. No ano seguinte, morre também o seu irmão Jorga, sem completar um ano de idade. Com a morte prematura do pai, a família vê-se obrigada a mudar de casa, para uma habitação mais modesta, na Rua de São Marçal, n.º 104, 3.º andar.

Segundo o próprio relata numa carta a Adolfo Casais, datada de 1935, foi também nesta altura que surge o seu primeiro heterónimo - Chevalier de Pas - e que escreve o seu primeiro poema, "À Minha Querida Mamã".

Em 1895, a sua mãe casa-se pela segunda vez, por procuração, com o comandante João Miguel Rosa, cônsul de Portugal em Durban (África do Sul), país onde Pessoa passa a maior parte da sua juventude e onde começa a demonstrar possuir talento literário.

Em Durbam, recebeu uma educação britânica, o que lhe proporciona um profundo conhecimento da língua e literatura inglesas, através de autores como Shakespeare, Lord Byron ou Edgar Allan Poe.

É um jovem dedicado a momentos reflexivos e isolados, talvez por ter de dividir a atenção da mãe com os filhos deste segundo casamento e o padrasto.

O ensino primário é feito na escola de freiras irlandesas da West Street, onde em três anos fez o percurso de cinco. Em 1899, ingressa na Durban High School, onde permaneceu durante três anos, destacando-se como um dos melhores alunos da sua turma. Nesse ano criou o pseudónimo de Alexander Search, enviando cartas a sí mesmo, em nome do pseudónimo.

No ano de 1901 foi aprovado com distinção no primeiro exame da Cape School Examination e escreveu os primeiros poemas em inglês. Esta época é marcada por mais uma morte - a sua irmã Madalena Hentiqueta, de dois anos de idade.

Ainda em 1901, regressou a Lisboa, de férias, instalando-se a família em Pedrouços e posteriormente na Av. D. Carlos I, n.º 109, 3.º andar esquerdo. Foi em Lisboa que nasceu o seu irmão João Maria, o quarto do segundo casamento da mãe. Neste período escreveu o poema "Quando ela passa".

Em 1903 candidatou-se à Universidade do Cabo da Boa Esperança, mas apesar de ter obtido a melhor nota do ensaio de estilo inglês (entre 899 candidatos), não obteve uma boa classificação. No entanto, recebeu o Queen Victoria Memorial Prize. Um ano depois surgiram os heterónimos Charles Robert Anon e H. M. F. Lecher.

Regressou a Portugal, sózinho, em 1905, onde viveu com a avó Dionísia e duas tias, na Rua da Bela Vista, 17. Em 1906 matriculou-se no Curso Superior de Letras, que abandonou antes de completar o primeiro ano.

A avó Dionísia morreu em 1907, deixando-lhe uma pequena herança, com a qual investiu numa pequena tipografia na Rua da Conceição da Glória, 38, 4.º. Mas o tempo de vida da tipografia "Empresa Íbis - Tipografia Editora - Oficinas a vapor" foi curto e rapidamente o negócio faliu. Dedicou-se, a partir de 1908, à tradução de correspondência comercial, actividade que durariou toda a sua vida.

Em 1912 iniciou a sua actividade de ensaísta e crítico literário na revista "Águia", com a publicação do artigo "A nova poesia portuguesa sociologicamente considerada".

Em 1915, com Mário de Sá-Carneiro, Luís de Montalvor, e outros poetas e artistas plásticos que formaram o grupo "Orpheu", lançou a revista "Orpheu", marco do modernismo português e onde publicou alguns dos seus poemas.

A sua paixão confessa - Ophélia Queirós - foi, talvez, a única pessoa a conhecer o lado menos introspectivo e melancólico de Fernando Pessoa.

Fernando Pessoa possuía ligações com o ocultismo e o misticismo, destacando-se a Maçonaria e a Rosa-Cruz, tendo defendido publicamente as organizações iniciáticas, num texto publicado no "Diário de Lisboa" a 4 de Fevereiro de 1935. Era também, conhecedor e praticante da astrologia.

A 9 de Novembro 1935 foi internado no Hospital de São Luís dos Franceses, com diagnóstico de "cólica hepática", possivelmente associada a uma cirrose hepática provocada pelo excesso de álcool ao longo da sua vida.

Morreu a 30 de Novembro de 1935, com 47 anos, e o seu corpo foi enterrado no Cemitério do Prazeres. Em 1988, por altura das comemorações do centenário do seu nascimento, os seus restos mortais foram transladados para o Mosteiro dos Jerónimos.

Nos últimos momentos da sua vida, pediu os seus óculos e clamou pelos heterónimos. A sua última frase foi escrita em inglês:

"I know not what tomorrow will bring"
("Eu não sei o que o amanhã trará").

sábado, 22 de março de 2008

Celebrando a Poesia



Tenho tanto sentimento
Que é frequente persuadir-me
De que sou sentimental,
Mas reconheço, ao medir-me,
Que tudo isso é pensamento,
Que não senti afinal.

Temos, todos que vivemos,
Uma vida que é vivida
E outra vida que é pensada,
E a única vida que temos
É essa que é dividida
Entre a verdadeira e a errada.

Qual porém é verdadeira
E qual errada, ninguém
Nos saberá explicar;
E vivemos de maneira
Que a vida que a gente tem
É a que tem de pensar.

(Fernando Pessoa)



Se, depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,
Não há nada mais simples.
Tem só duas datas - a da minha nascença e a da minha morte.
Entre uma e outra coisa todos os dias são meus.

Sou fácil de definir.
Vi como um danado.
Amei as coisas sem sentimentalidade nenhuma.
Nunca tive um desejo que não pudesse realizar, porque nunca ceguei.
Mesmo ouvir nunca foi para mim senão um acompanhamento de ver.
Compreendi que as coisas são reais e todas diferentes umas das outras;
Compreendi isto com os olhos, nunca com o pensamento.
Compreender isto com o pensamento seria achá-las todas iguais.

Um dia deu-me o sono como a qualquer criança.
Fechei os olhos e dormi.
Além disso, fui o único poeta da Natureza.


(Fernando Pessoa)

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