quarta-feira, 22 de agosto de 2007

Casal Ventoso



"A Voz do Mal"

Sei que te queres esconder
Sei que me queres deixar
Vais ter muito que correr
Sabes que te vou achar

Na aldeia mais distante
Acabarei por te encontrar
Esperarei por um sinal
Da tua sombra ao passar
Á luz da lua
A voz do mal

Uma rua mais sombria
O cenário habitual
Uma noite vazia
Mudares o teu final
Para acabar tudo de vez

Tu vais ter que me matar
Eu ficarei para sempre em ti
Esse remorso fatal
Desconheço a voz de Deus
Só conheço a voz do mal
Desconheço a voz de Deus
Só conheço a voz do mal

(Tim/Xutos e Pontapés)


Hoje, ia a caminho do trabalho e ouvi esta música no meu mp3. De imediato vieram-me à mente imagens de um tempo passado, que deixou marcas em mim e me tornou na pessoa que sou hoje - o tempo em que trabalhei no Casal Ventoso.

É verdade, em 1998 eu trabalhava no Casal Ventoso, como voluntária - fui para esse bairro porque queria trabalhar lá, foi uma escolha minha. E não me arrependo, bem pelo contrário, voltaria. Era outro mundo, outra realidade, que começava na Meia-Laranja e acabava ao fundo da Rua Arco do Carvalhão. Muito próximo fica o Cemitério dos Prazeres - sempre achei irónico...

Percorri quilómetros naquele bairro, a pôr em prática o que o curso de terapeuta de toxicodependentes me tinha ensinado e o que o Curso de Psicologia me ia ensinando... mas não há teoria que sobreviva, não há saber que resista, se não formos aquilo que aquelas pessoas procuravam em nós - sermos pessoas, sermos humanos...

Passava os dias naquelas ruas, com os toxicodependentes, e quando regressava a casa, muitas vezes chorei de revolta, de impotência, de desespero por aquilo que via, mas regressava sempre com o coração cheio.

Vi muitas coisas, que ainda hoje não me parecem reais, vi partos no meio da rua, de mulheres que não sabiam que estavam grávidas e julgavam estar a sofrer as dores da ressaca, vi crianças de 10 anos a consumir heroína, vi gente a morrer, vi mortos, vi corpos que se arrastavam sem consciência que ainda viviam... mas também vi olhares de esperança, lágrimas de gratidão, pais à procura de filhos, filhos a encontrar os pais, acima de tudo, vi PESSOAS.

Ouvi histórias inacreditáveis, conheci vidas impensáveis, vivi tempos indescritíveis...

Mas foi enquanto lá trabalhava, que mais aprendi sobre o ser humano, que mais cresci... Foi lá que conheci as pessoas mais bonitas que conheci até hoje...

Para lá do toxicodependente, da degradação que todos viam e a que todos viravam a cara, eu vi, eu conheci, pessoas com uma enorme capacidade de amar, em sofrimento, a pedir ajuda, a pedir apenas uma palavra amiga ou um sorriso... Pessoas a quem um dia faltou algo que a droga preencheu...

Adorei o trabalho que fiz... Voltaria a fazer tudo outra vez...

10 comentários:

aLqUimISta disse...

Rosa, não é qualquer pessoa que tem a coragem para fazer aquilo que te deu prazer.

Tens a minha admiração...

...mas isso já tu sabes.

kiduchinha disse...

É isso amiga!! às vezes podemos fazer a diferença, mesmo que haja sempre quem nos atire que não vale a pena... Vale sempre a pena!... dar uma mão amiga, levar a que alguém não desista de lutar e sonhar e também às vezes apenas ouvir... beijocas

Anónimo disse...

Pessoas que, tal como tu, passaram muito do seu tempo lá, foram talvez dos poucos contactos que muitos dos que lá viviam tiveram com a dita sociedade.
Lembro-me carinhosamente da luta silenciada dos "amarelos" e quem sabe se não nos chegámos a cruzar...

Homem do Leme disse...

É bem verdade, a luta silenciada dos "amarelos" - também me lembro bem deles. Mas não foi só a luta deles que foi silenciada, foi a lua de todos os que acreditavam ser possível fazer algo por aquelas pessoas. A operação de cosmética no Casal Ventoso, não passou mesmo disso, uma operação de cosmética. O problema da toxicodependência continua, muitos casais ventosos existem por aí, e é pena que a luta contra a droga no nosso país eteja moribunda - porque a droga, essa continua muito viva!

Quem sabe, não nos cruzámos por lá! É sempre bom saber de alguém que trilhou os mesmos caminhos.

Anónimo disse...

olá, achei muito interessante a sua historia. eu estou a fazer um trabalho sobre o casal ventoso e gostaria de saber se podia partilhar comigo algumas histórias dos toxicodependentes que por lá andaram, se já lá viviam, como se meteram na droga etc, e se nao se importasse eu tambem gostava de aproveitar o seu testemunho para o meu trabalho. tem a qui o meu email se quiser me contactar:

miriam_reis9@hotmail.com

Anónimo disse...

Li o texto cerca de 3 a 4 vezes, estou com um grupo de amigos a fazer um texto sobre toxicodependencia, drogas, pessoas que ultrapassaram esse vicio... Fiquei impressionada com tudo o que escreveu, achei extraordinario ter a curagem de lutar que teve .
Tenho 18 anos e tambem vou lutar para a ajuda ... um obrigada pelo ensino

Anónimo disse...

*trabalho

alvaro franco disse...

Depois de lero o que escreves-te, tenho que agradecer facto de existir gente capaz de comprender o sufrimento alheio. Eu nasci na antiga curraleira e agarrei-me quando tinha 13 anos, deixei a droga aos 25 e tenho 35, em doze anos vi otro tanto como tu, maior parte dos meus amigos morreram, alguns até ja esqueci o nome, o já nem me vêm á memoria, memoria essa que tentei apagar ao longo destes 10 anos, mas sabes, continua a ser uma luta diaria, continua, o bicho ainda se sente aqui dentro, tengo que lutar todos os dias para mata-lo dentro de mim. Claro que o que tenho hoje me obriga a seguir em frente, sem duvidar e sem olhar atrás, acho que o mal esta quando olhamos para tras, isso quer dizer que ja nao estamos seguros da nossa escolha, e o problema de quem se droga, nunca tem a certeza se tomou a decisao correcta ao deixar a droga, e olha para tras, quando se olha para tras o bicho resuscita e provoca a ansia de alimentá-lo. Aqueles que conseguimos manter-nos na luta, temos de prevalecer, falar da nossa experiencia para que outros saibam onde esta a fronteira da esperança e o desespero.
Obrigado por esta oportunidade de expressar o que levo dentro. A todos aqueles que estejam a passar por esta situaçao, FORÇA... Um abraço

sofia faustino disse...

por curiosidade hoje procurei sobre o casal ventoso e vim aqui parar, li o que escreveu e emocionei me,talvez porque nessa altura em que voce la fez voluntariado, em 98, eu estava lá a viver aquilo! na altura tinha 18 anos e gravida! sim, vivi ali muitos anos, e tambem vi o meu filho nascer ali e por fim vi o meu marido ali morrer tambem! hoje tenho 32 anos e estou livre daquilo! mas nunca vou esquecer aquele lugar e aquelas pessoas,algumas pelo menos, enfim com isto tudo lhe quero dizer "OBRIGADO POR NAO TER DESISTIDO DE NÓS!OBRIGADO PELA A AJUDA,PELAS PALAVRAS E PELO CONFORTO QUE NOS DEU, FOI E CONTINUA A SER IMPORTANTE PARA NÓS SABER QUE EXISTEM PESSOAS COMO VOCE QUE NUNCA DESISTEM DE NOS!!! obrigado por ser assim!

Anónimo disse...

Olá!!
Como nascida e criada no Casal Ventoso e ter assistido a tudo e mt mais...
Uma experiência nunca é um fracasso, pois sempre vem demonstrar algo. .... A experiência ensina-nos...sou a prova viva do sucesso...Cristina Mendes

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