quinta-feira, 27 de setembro de 2007

Eça de Queiróz


Já não é novidade, para alguns de vós, o meu gosto especial por Eça de Queiróz. Por isso, decidi escrever um pouco sobre o autor, e um dos seus livros, ou melhor, sobre o contexto sócio-cultural e histórico de um dos seus livros (o meu favorito) - "Os Maias".
De forma a não tornar o texto muito descritivo, farei uma breve biografia do autor e o restante texto criei-o em forma de entrevista virtual a Eça de Queiróz. Espero que gostem.

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José Maria Eça de Queiróz nasceu a 25 de Novembro de 1845, na Póvoa de Varzim. É filho de José Maria de Almeida Teixeira de Queiróz, magistrado e homem de letras, que só se casa com a mãe de Eça de Queiróz quatro anos após o seu nascimento. Estuda, como interno, no Colégio da Lapa, no Porto e é aí que se inicia nas leituras de Garrett, por influência do director, pai de Ramalho Ortigão.

Em 1861 vai para Coimbra, onde se forma em Direito, no ano de 1866. É então que conhece Antero de Quental e outros, que virão a formar a chamada "Geração de 70". Em Março de 1866 publica na "Gazeta de Portugal" o seu primeiro texto: "Notas Marginais". Juntamente com Antero de Quental, e sob influência de Baudelaire, cria a figura "satânica" de Fradique Mendes, verdadeiro duplo de Eça. Ainda em 1866 instala-se em Lisboa, na casa de seu pai, onde cria o "Grupo do Cenáculo"

Três anos depois assiste à abertura do canal do Suez e visita o Egipto e a Palestina, onde recolhe material para o romance "A Relíquia", publicado em 1887. Em Évora cria um jornal da oposição, "ODistrito de Évora". Em Julho de 1870 é nomeado administrador do concelho de Leiria, cargo que ocupa durante um ano, e cujo ambiente social é recriado em "O Crime do Padre Amaro". Escreve durante esse período, em colaboração com Ramalho Ortigão, um folhetim para o "Diário de Notícias": "O Mistério da Estrada de Sintra", cuja intriga marcadamente policial abala a tranquilidade estagnante dos leitores.

Em Novembro de 1872, parte como cônsul para o Havana, seguindo em missão oficial para os Estados Unidos. É transferido para o consulado de Newcastle, Inglaterra em Novembro de 1874, seguindo-se Bristol. Em 1883 é eleito sócio da Academia das Ciências (sem nunca lá ter ido) e casa-se com a irmã do Conde de Resende, seu amigo. Em 1888 é nomeado cônsul em Paris, concretizando assim, o sonho da sua vida, e aí permanece até à sua morte, a 17 de Agosto de 1900.

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E agora, a entrevista virtual a Eça de Queiróz, sobre o contexto sócio-cultural e histórico de "Os Maias".

Homem do Leme - Sabemos que os maiores acontecimentos da década de 70 foram: a Geração de 70 e, consequentemente, a Questão Coimbrã. Tudo começou com uma carta de Feliciano de Castilho, onde ele atacava ironicamente os dois novatos com maior influência em Coimbra - Antero de Quental e Teófilo Braga. Podia-nos contar estes acontecimentos mais detalhadamente?

Eça de Queiroz - Antes de mais queria agradecer o facto de me terem convidado a vir aqui, falar de acontecimentos tão marcantes para a minha vida e para a vida de todos os portugueses, acontecimentos esses que influenciaram homens de letras de hoje e que influenciarão homens de letras de gerações futuras. Retomando agora o assunto da nossa conversa: tal como foi dito, toda a questão Coimbrã teve início com uma carta-posfácio escrita por Castilho e editada com o "Poema da Mocidade" de Pinheiro Chagas, em 1865. Essa carta, atacava desapropriadamente, Antero de Quental e Teófilo Braga que tinham publicado respectivamente, "Odes Modernas" e "Visão dos Tempos" e que pelas ideias expressas tinham perturbado Castilho...

HL - ... entretanto, Castilho nomeia Pinheiro de Chagas para regente da cadeira de Literatura Moderna da Faculdade de Letras...

Eça - ... sim, sim; cargo esse que era disputado também por Antero de Quental, Teófilo Braga e Vieira de Castro. Mas é claro que Feliciano de Castilho se opôs a todos estes candidatos, alegando que era necessário pôr fim à desorientação presente na língua portuguesa. É então que Antero de Quental escreve uma carta, conhecida pelo nome de "Bom Senso e Bom Gosto", onde insulta violentamente o velho Castilho.

HL - Mas nesta luta de Antero e Castilho, como em todas as lutas, existiam apoiantes de ambas as partes...

Eça - ... é claro. Antero era apoiado por Teófilo Braga, Oliveira Martins e por mim, entre outros. Ao lado de Castilho aparecem Pinheiro Chagas e Camilo. A juventude apoiante de Antero ficou conhecida por Geração de 70 e toda esta questão por Questão Coimbrã.

HL - Há quem diga que a geração de 70 corresponde a um "terceiro romantismo". Concorda com esta afirmação?

Eça - Concordo. Se se considerar Herculano e Garrett como o "primeiro romantismo"e António Feliciano de Castilho como o "segundo romantismo", então nós somos o "terceiro romantismo".

HL- Terceiro romantismo esse que se opõe ao segundo romantismo...

Eça- ...é claro, pois se Antero e Castilho são opositores, logo os romantismos por eles defendidos também se opõem!

HL - Apesar do terceiro romantismo adoptar, de certo modo, as ideias políticas e culturais do romantismo de Garrett, as suas influências ideológicas são bastante diferentes.

Eça - Sim. A nossa ideologia é influenciada por Hegel, Marx, e outros; a nível de elementos estéticos, os mais marcantes são o realismo e o naturalismo de Zola e de Flaubert,estes últimos que consistem em...

HL - Sr. Eça, deesculpe interrompê-lo, mas gostaria de lhe pedir que guardasse esse tema do Naturalismo e do Realismo para daqui a pouco, pois é um tema que também aqui vamos desenvolver. Mas agora gostaria de lhe fazer uma outra pergunta, se não se importa...

Eça - Não, de maneira nenhuma. Sabe como é, são tão raras as oportunidades de se fazer história completa, que nos deixamos levar pelo entusiasmo. Mas continue...

HL - A próxima questão é a seguinte: O Sr. fez parte da sociedade "inter-amicos", os Vencidos da Vida, formada em Lisboa no ano de 1887/88. Qual a finalidade desta sociedade?

Eça - Os Vencidos da Vida era um grupo de personalidades de relevo na vida literária (isto só cá para nós, de grandes personalidades!). A ideia partiu de Ramalho Ortigão e tinha como objectivo juntar colegas que outrora tinham pertencido à Geração de 70.

HL - Isso quer dizer que os assuntos discutidos em tais reuniões eram uma continuação da Questão Coimbrã?

Eça - Não propriamente, pois a questão Coimbrã foi mais uma questão literária e a manifestação dos Vencidos era uma atitude de protesto perante a vida portuguesa. É claro que a nossa manifestação, era a manifestação do espírito de reforma, inaugurada com a questão Coimbrã, simbolizando o objectivo aristocrático e intelectual do movimento da Geração de 70, que em conflito com as leis regentes do constitucionalismo tornou-se um pessimismo irónico e elegante. Talvez nós (os vencidos) não tenhamos sido uma continuação da questão Coimbrã, mas sim uma evolução da mesma. É também nesta fase que eu, Antero de Quental e Oliveira Martins renunciamos à acção política, surgindo assim o socialismo utópico.

HL - Agora sim, vamos falar do Naturalismo e do Realismo. O período do realismo teve início com a questão Coimbrã. Posteriormente aparecem as conferências do Casino. No que é que consistiam essas conferências?

Eça - A ideia partiu de Antero de Quantal, com a finalidade de unir os adeptos das novas ideias, que tinham sido colegas em Coimbra. Essa conferências permitiam-nos discutir (e essa é que era a sua verdadeira finalidade) as questões contemporâneas: religiosas, políticas, sociais e científicas.

HL - Por isso elas eram chamadas de "livres, democráticas e científicas"...

Eça - Sim, pois elas tornaram-se num meio de propaganda aberta de um ideal revolucionário para a transformação social, moral e política dos povos.

HL - Toda a base destas conferências poder-se-á chamar de dupla, uma vez que se baseiam nas ciências humanas despertadas ao nível desta geração e nas ciências políticas consciencializadas pela geração anterior. Concorda?

Eça - Sim, concordo. Senão vejamos as preocupações dos conferencistas de 71:
1.º - Ligar Portugal ao movimento moderno
2.º - Agitar, na opinião pública, as grandes questões da filosofia e da ciência modernas
3.º - Estudar todas as ideias e todas as correntes do século
4.º - Adquirir a consciência dos factos que nos rodeiam na Europa.

HL - É todo esse interesse pela realidade e pela análise social que caracteriza o realismo.

Eça - Ideologicamente falando é, pois o Realismo opõe-se ao Idealismo, ou seja, ao Romantismo, com toda a sua formalidade e sentimentalismo. O Realismo não é nada disso, pelo contrário, ele é anti-idealista; o Realismo quer observar os factos e analisá-los rigorosamente.

HL - E quais os temas de interesse dos realistas?

Eça - Os realistas preocupavam-se em exteriorizar a vida burguesa nos seus aspectos negativos: a ambição, a avareza, a cobiça, a corrupção; representavam também a vida urbana, pois é nas grandes cidades que mais se fazem sentir as tensões sociais, políticas e económicas.

HL - Sendo assim, os realistas procuram mostrar o sofrimento social e moral da frustração, da corrupção e do vício.
Eça - Sim, absolutamente. De um modo geral, o realismo denuncia e analisa criticamente os vícios da sociedade.
HL - O período que se segue ao Realismo é o Naturalismo. Ideologicamente, o Naturalismo é influênciado pela ciência e pela filosofia do século XIX, destacando-se o positivismo de Auguste Comte, onde o importante é analisar vigorosamente os factos e as suas causas. O Determinismo, pensamento relacionado com o Positivismo, também é importante pois preocupa-se mais com as causas dos fenómenos, do que com os fenómenos propriamente ditos. Tematicamente, quais as principais preocupações dos Naturalistas?
Eça - Os temas fundamentais dos Naturalistas são: o alcoolismo como deformação social; o jogo como consequência de determinadas situações de injustiça; o adultério como resultante de uma educação romântica errada; a opressão social como resultante de interesses económicos, políticos e sociais.

HL - Agora gostava que explica-se onde é que tudo isto se aplica em "Os Maias".
Eça - Para fazer essa explicação, vamos por partes: No capítulo VI, durante a discussão entre Alencar e Ega, no Hotel Central, está presente a oposição das duas correntes literárias (Realismo versus Romantismo), e a sua caracterização:
"Craft não admitia também o naturalismo, a realidade feia das coisas e da sociedade estatelada nua num livro.(...)
(...) Ega, horrorizado, apertava as mãos na cabeça - quando do outro lado Carlos declarou que o mais intolerável no realismo eram os seus grandes ares científicos, a sua pretensiosa estética deduzida de uma filosofia alheia, e a invocação de Claude Bernard, do experimentalismo, do positivismo, de Stuart Mill e de Darwin, a propósito de uma lavadeira que dorme com um carpinteiro!" (Os Maias)

HL - Também se pode interpretar essa discussão como o simbolizar da questão Coimbrã?


Eça - Sim, nesse caso Alencar, que defende o Romantismo, corresponde a Castilho, e Ega,
defensor das teorias naturalistas, simboliza Antero.


HL - As conferências do Casino também estão presentes neste romance?

Eça - Estão, no capítuo IV, onde se relata todo o ambiente nocturno nos Paços de Celas, e onde se discutia a Arte, o Positivismo, o Realismo e outros assuntos relacionados com o Naturalismo.

"Os Paços de Celas, sob a sua aparência preguiçosa e campestre, tornaram-se uma fornalha de actividades. No quintal fazia-se uma ginástica científica. Uma velha cozinha fora convertida em sala de armas - porque naquele grupo a esgrima passava como uma necessiade social. À noite, na sala de jantar, moços sérios faziam um wist sério: e no salão, sob o lustre de cristal, com o Fígaro, o Times e as revistas de Paris e de Londres espalhadas pelas mesas, o Gamacho ao piano tocava Chopin e Mozart, os literatos estirados pelas poltronas - havia ruídosos e ardentes cavacos, em que a Democracia, a Arte, o Positivismo, o Realismo, o Papado, Bismarck, o Amor, Hugo e a Evolução, tudo por seu turno flamejava no fumo do tabaco, tudo tão ligeiro e vago como o fumo. E as discussões metafísicas, as próprias certezas revolucionárias adquiriram um sabor mais requintado com a presença do criado de farda desarrolhando a cerveja, ou servindo croquetes." (Os Maias)

HL - Sr. Eça, o sr. não manifesta a sua discordância com o Romantismo neste romance?

Eça - Mas é claro que sim! E faço-o no capítulo III através de Afonso da Maia, na sua conversa com o abade.

"(...) Mas enfim os clássicos - arriscou timidamente o abade.
- Qual clássicos! O primeiro dever do homem é viver. E para isso é necessário ser são, e ser forte. Toda a educação sensata consiste nisto :criar a saúde, a força e os seus hábitos, desenvolver exclusivamente o animal, armá-lo de uma grande superioridade física, Tal qual como se não tivesse alma. A alma vem depois .... A alma é outro luxo. É um luxo de gente grande...
O abade coçava a cabeça, com o ar arrepiado.
- A instruçãozinha é necessária - disse ele. - Você não acha, Vilaça? Que Vossa Excelência, Sr. Afondo da Maia, tem visto mais mundo do que eu... Mas enfim a instruçãozinha...
- A instrução para uma criança não é recitar Tityre, tu patulae recubans... É saber factos, noções, coisas úteis, coisas práticas..." (Os Maias)

HL - E a fase dos vencidos da vida, onde é que se situa?

Eça - Essa fase está no último capítulo, quando Carlos, após 10 anos de permanência por terras francesas volta a Lisboa e encontra tudo na mesma, é a desilusão, a tomada de consciência de que a sua luta foi em vão.

"(...) E Carlos reconhecia, escostados às mesmas portas, sujeitos que lá deixara havia dez anos, já assim encostados, já assim melancólicos. (...)
- Falhámos a vida, menino!
- Creio que sim... Mas todo o mundo mais ou menos a falha. Isto é, falha-se sempre na realidade aquela vida que se planeou com a imaginação. Diz-se: "Vou ser assim, porque a beleza está em ser assim." E nunca se é assim, é-se invariavelmente assado, como dizia o pobre marquês. (...) Com efeito, não vale a pena fazer um esforço, correr com ânsia para coisa alguma.
Ega, ao lado, ajuntava, ofegante, atirando as pernas magras:
- Nem para o amor, nem para a glória, nem para o dinheiro, nem para o poder...
A lanterna vermelha do americano, ao longe, no escuro, parara. E foi em Carlos e em João da Ega uma esperança, outro esforço:
-Ainda o apanhamos! (...)" (Os Maias)

HL - Obrigado, por esta lição de literatura!


3 comentários:

Anónimo disse...

perfeito post!!!

elisabete cunha

Anónimo disse...

fez me jeito para um trabalho de portugues

muito, bem conseguido, torna se interessante,ao contrario daqeles textos massadores que por vezes lemos!!

Homem do Leme disse...

Ainda bem que ajudou. Fico contente com isso.

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