terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Tess Gerritsen

Tess Gerritsen é uma autora norte-americana, que há algum tempo ganhou espaço nas prateleiras da minha biblioteca. Médica de formação, começou a escrever em 1987 (ano em que foi publicado o seu primeiro livro, um thriller romântico). Em 1996 publica o seu primeiro policial, num estilo muito próprio.

A sua escrita, viva e plena de acção, assume características pouco recomendáveis a leitores mais sensíveis, com descrições quase cirúrgicas dos crimes que relata. Ao longo dos seus livros, as personagens vão criando uma história própria, individual, uma certa cumplicidade com os leitores, que passa de livro para livro, onde as suas vidas se desenvolvem ao mesmo tempo que as mentes mórbidas e sádicas dos assassinos vão pondo em prática as suas loucuras, desejos e fantasias.

Jane Rizzoli é a detective que, num mundo dominado pelos homens, procura não mostrar fraquezas, apesar de também as sentir como todos os seus colegas. É uma mulher aparentemente fria, pronta para ser a primeira a enfrentar o perigo e correr riscos, mas que no fundo procura superar a sua fragilidade. Ao longo dos diversos títulos, a Jane Rizzoli detective e a Jane Rizzoli mulher vão-se cruzando e, muitas vezes, contradizendo.

A patologista Maura Isles é, ao contrário da detective, uma mulher que desperta a curiosidade masculina. Conhecida por "Rainha dos Mortos" é a ela que cabe a tarefa de autopsiar os corpos das vítimas, de "falar" com os cadáveres e dar, algumas vezes, respostas, outras vezes, levantar questões. Fechada no seu casulo, dá a imagem de mulher inacessível, inabalável, mas que no fundo, esconde uma vida e um passado.

Em Portugal, o "Círculo de Leitores" já editou 5 títulos desta autora:

"O Cirurgião" - Um assassino silencioso entra em casa das mulheres enquanto elas dormem. Fere-as com a precisão de um cirurgião... Os jornais de Boston começam a denominá-lo de "O Cirurgião"... Catherine Cordell, médica e sobrevivente de um ataque muito semelhante ao de "O Cirurgião", é a única pista que os detectives Jane Rizzoli e Thomas Moore têm. Mas, como é possível os crimes estarem a ser repetidos se Catherine Cordell matou o seu agressor?...

"O Aprendiz" - Boston; um verão escaldante e uma série de crimes horrendos. Homens abastados são forçados a assistir, enquanto as suas esposas são brutalizadas, após o que também eles serão assassinados. Quem será este assassino, cujo sadismo amedontra a cidade? O perfil sugere o assassino "O Cirurgião", recentemente preso. A polícia segue a pista de um acólito à distância, que imita o seu ídolo maníaco e louco. Jane Rizzoli vê-se, novamente, na pista do assassino que a marcou... Só que desta vez está decidida a acabar com ele, mas espera-a uma vingança mais cruel do que se possa imaginar...

"A Pecadora" - No interior do convento, na Capela de Nossa Senhora da Luz Divina, encontra-se o mal: duas freiras jazem no chão, uma sem vida, outra gravemente ferida, vítimas de um assassino sem piedade. Ao autopsiar a irmã Camille, de 20 anos, a patologista Maura Isles descobre que esta freira tinha dado à luz pouco antes de ser assassinada. A seguir, é descoberto outro cadáver, mutilado e irreconhecível. Maura Isles e a detective Rizzoli juntam-se, para descobrir que estes dois homicídios se ligam por um antigo horror.

"Duplo Crime" - E se de repente, o corpo que jaz na nossa frente fosse o nosso? Foi isso que aconteceu a Maura Isles, ao descobrir que a mulher que foi assassinada à porta de sua casa, era igual a si própria... O ADN confirma que essa mulher é sua irmã gémea. Mas , Maura sempre fora filha única... Uma investigação de homicídio que se transforma numa viagem a um passado desconhecido... à descoberta de uma mãe que, paralelamente ao poder de lher ter dado a vida, julga ter o poder de lha tirar...

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

Salvador Dali

Salvador Dali nasceu a 11 de Maio de 1904, em Figueras, uma pequena cidade da província de Gerona. Desde o seu nascimento que a morte é uma presença na sua vida e, mais tarde, na sua obra: Salvador recebe o nome de um irmão que morrera prematuramente poucos anos antes do seu nascimento. Para além de receber doses extremosas de afecto dos seus pais, o que contribui para a sua personalidade excêntrica e egocêntrica, também Salvador Dali se vê como o fantasma do irmão falecido.


Muito cedo, com apenas 10 anos de idade, Dali decide que quer ser pintor. A sua origem catalã e a sua infância influênciam a sua pintura, onde, desde as primeiras obras , em quase todos os seus quadros, se vê como pano de fundo as paisagens rochosas da costa catalã.
Também a metáfora gastronómica, as noções alimentícias e o canibalismo são das constantes mais significativas da obra e pensamento daliniano. O comestível assume-se como representante do mortal: tudo o que se come é susceptível de putrefacção e antecipação da morte (muitas vezes representado pelas formigas nos seus quadros), ao mesmo tempo que cozinhar significa metamorfose, transformação do duro em mole. Assim, comer pode ser incorporar, apreender o que é alheio, numa metáfora paranóica do conhecimento.


Canibalismo de Outono (1936 - 1937)


Esta obra relaciona o comer à morte, através de um macabro banquete. Todos os pormenores são retratados, desde os utensílios aos diversos alimentos. A violência da cena é suavizada pelos tons outonais.

Outro tema frequente na obra de Dali, são as gavetas. Dalí inspira-se nas teorias psicanalíticas de Sigmund Freud para pintar os seus célebres quadros "O Contador Antropomórfico" (1936), "Girafa em Chamas" (1936 - 1937) ou "Espanha" (1938). Segundo Salvador Dali, "A única diferença entre a Grécia imortal e a época contemporânea é Freud, que descobriu que o corpo humano, que era puramente neoplatónico na época dos Gregos, está hoje cheio de gavetas secretas que só a psicanálise é capaz de abrir."

O Contador Antropomórfico (1936)

Neste quadro, a figura encontra-se com a cabeça debruçada sobre as suas próprias gavetas, numa alegoria psicanalítica da tendência para aspirarmos o odor narcísico das nossas próprias gavetas.


Espanha (1938)

Uma gaveta pode abrir-se para deixar sair os odores nauseabundos da guerra, numa alusão aos horrores da Geuerra Civil Espanhola.

Este quadro conduz-nos a um outro tema nobre de Dali - as imagens duplas, anamorfoses ou imagens distorcidas que só são visíveis quando se observa o quadro de determinado ponto de vista. Trata-se de um dos exemplos mais evidentes do método paranóico-crítico. É como se existissem dois quadros num só, originando uma terceira dimensão. Nestas obras, Dali revela a inapreensível relatividade do mundo das imagens.

No quadro acima reproduzido "Espanha" dois cavaleiros num duelo à lança formam os peitos da mulher, cuja cabeça é formada por um grupo de pessoas num violento combate.


O Enigma sem Fim (1938)


De acordo com a atenção fixada numa parte ou outra do quadro, pode ver-se o busto de Freud, uma natureza morta, um homem reclinado, um galgo,...


Dois outros elementos constantes na obra de Dali são as muletas e a criança com o arco, que aparecem juntas este quadro.


O Espectro do Sex-Appeal (1934)

A criança representa Dali, testemunha infantil das suas próprias visões, enquanto que as muletas têm duas interpretações - fazem a ligação entre o surreal, o imaginário, o paranóico e o real (estando enterradas no solo, suportando as imagens) ou por vezes representam a sublimação da ideia de impotência, a dualidade entre o duro e o mole tâo característica de toda a obra deste artista.

O Grande Paranóico (1936)

As várias pessoas do quadro formam um rosto.

Muito mais há a dizer sobre a vasta obra de Salvador Dali... talvez num outro post...

domingo, 4 de novembro de 2007

Desafio

Vi no blogue do Alquimista este desafio e decidi aceitar:

1. Pegue num livro.
2. Abra na página 161.
3. Procure a 5ª frase completa na referida página.
4. Transcrever a frase no blogue. Tal como identificar o livro, o(a) autor(a) do mesmo.
5. Passar o desafio a cinco bloggers.

"Ana de Áustria baixou a cabeça, deixou esgotar a torrente sem responder, esperando que ele, depois de cansado, se calasse; mas não era isso o que queria Luís XIII; Luís XIII queria uma discussão de onde obtivesse qualquer esclarecimento; tal era a convicção que tinha de que o Cardeal ocultava alguma segunda ideia e lhe maquinava uma dessas surpresas terríveis, daquelas que Sua Eminência sabia preparar."

("Os Três Mosqueteiros" - Alexandre Dumas)

Se alguém quiser, que agarre este desafio...

sábado, 3 de novembro de 2007

O meu professor de Filosofia

Há pessoas que ao longo das nossas vidas nos vão marcando de forma decisiva. Para mim, uma dessas pessoas foi o meu primeiro professor de Filosofia.

A forma apaixonada com que fazia o seu trabalho, a dedicação com que dava as aulas, sempre foram, para mim, um modelo a seguir.

Aquele homem conseguia dar as suas aulas porque nos dava o que nós queríamos: uma nova realidade, novas formas de questionar o que nos era apresentado como verdade, sentido crítico. Nas suas aulas, aquele grupo de jovens vestidos de preto, com correntes à cintura, cruzes e caveiras, fazia-se ouvir, podia expor as suas ideias tantas vezes apelidadas de anárquicas. E em resposta, lá vinha mais um autor e as suas ideias, umas vezes concordantes, outras nem por isso, mas sempre a aprendermos que até para defendermos aquilo em que acreditamos é importante conhecer o contraditório.

Foi nas suas aulas que conheci Freud, Nietzsche, Einstein, Salvador Dali, as teorias do Caos, da Relatividade, o Big Bang, o Surrealismo, o Niilismo,...

Quantas vezes foram as letras das músicas que ouvíamos o mote para uma qualquer matéria... Numa idade em que queremos mudar o Mundo, um professor mostrou-me que isso é possível: se todos mudar-mos e melhorar-mos o nosso Mundo, o Mundo de todos é mudado e melhorado.

Ainda hoje, quase 19 anos passados (tenho agora a idade que o professor tinha naquela altura), lembro o Professor Álvaro Daniel Formigo Nunes, como um dos grandes mestres da minha vida.

E aqui fica uma música que esse professor assobiava enquanto nós fazíamos os testes.
http://www.youtube.com/watch?v=kPp_0sOZr4E

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

As amizades são assim...

Pode ser que um dia deixemos de nos falar...
Mas, enquanto houver amizade,
Faremos as pazes de novo.

Pode ser que um dia o tempo passe...
Mas, se a amizade permanecer,
Um de outro se há-de lembrar.

Pode ser que um dia nos afastemos...
Mas, se formos amigos de verdade,
A amizade nos reaproximará.

Pode ser que um dia não mais existamos...
Mas, se ainda sobrar amizade,
Nasceremos de novo, um para o outro.

Pode ser que um dia tudo acabe...
Mas, com a amizade construiremos tudo novamente,
Cada vez de forma diferente.
Sendo único e inesquecível cada momento
Que juntos viveremos e nos lembraremos para sempre.

Há duas formas para viver a sua vida:
Uma é acreditar que não existe milagre.
A outra é acreditar que todas as coisas são um milagre.


(Albert Einstein )

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

Manoel de Oliveira

Alguns de vocês já sabem e perguntam-me: "Como é que gostas de Manoel de Oliveira?"; outros ficarão agora a saber e, provavelmente, perguntarão o mesmo.

Mas a verdade é que gosto mesmo dos filmes de Manoel de Oliveira. São filmes profundos, com diálogos fantásticos, que contêm sempre uma reflexão social, moral, religiosa.
Os filmes de Manoel de Oliveira são, normalmente, caracterizados como "parados", devido à "lentidão" com que se desenrrola a acção e aos movimentos subtis da câmara, fazendo grandes planos de objectos ou cenários. Para mim, os filmes de Manoel de Oliveira são plenos de acção, não de uma acção visual, mas de uma acção emotiva, reflexiva, onde as palavras e os conteúdos assumem o papel principal, deixando os actos em segundo lugar. O seu cinema é um cinema que comunica pelas palavras e pela imagem, não pela acção. Para entender e gostar de Manoel de Oliveira é preciso penetrar fundo nos diálogos, na história, geralmente adaptada de textos literários. Manoel de Oliveira, cria nos seus filmes, personagens , que representam, acima de tudo, conceitos, ideias, ideais, personagens irreais em cenários reais.

Sempre fui ver os seus filmes sózinha, mas é assim que me fazem sentido, em especial se forem vistos no Quarteto ou no King. São momentos únicos, momentos meus, que eu adoro.

Manoel de Oliveira tem hoje 98 anos e é um dos portugueses que eu gostaria de conhecer.


Aqui fica a sua biografia:

Manoel Cândido Pinto de Oliveira nasceu a 12 de Dezembro de 1908, no Porto, no seio de uma família burguesa (o seu pai foi o primeiro fabricante de lâmpadas português). Desde muito cedo acompanhava o pai ao cinema, o que lhe despertou o interesse pela sétima arte. Estudou no Porto, no Colégio Universal, e na Galiza, no Colégio Jesuíta de La Guardia.
Aos 20 anos, inscreveu-se na Escola de Actores de Cinema, participando como figurante num filma de Rino Lupo, em 1928 - "Fátima Milagrosa".

A 21 de Setembro de 1931 estreou no Congresso Internacional da Crítica a versão muda de "Douro, Fauna Fluvial". Em 1933, é mais uma vez actor, no filme "Canção de Lisboa" e em 1934 estreou a versão sonora de "Douro, Fauna Fluvial".

Manoel de Oliveira destaca-se, entretanto, no automobilismo, chegando mesmo a vencer a "II Rampa do Gradil", em 1938. Casa-se com Maria Isabel Brandão Carvalhais, em 1940.

A sua primeira longa-metragem "Aniki-Bóbó" é realizada em 1942. Na década de 50, por falta de apoios financeiros não realiza alguns filmes que já existiam no papel, tendo-se dedicado então, à produção agrícola da família, na região do Douro. Em 1955 realizou um estágio intensivo na Alemanha, nos laboratórios da AGFA, com o objectivo de estudar a cor aplicada ao cinema. A década de 60 é a década da consagração internacional - Homenagem no Festival de Locarno, Itália, em 1964 e passagem da sua obra na Cinemateca de Henri Langlois, Paris, em 1965.
Em 1980 recebeu a Medalha de Ouro pela sua obra, atribuída pelo CIDALC, e em 1985 o seu filme "Le Soulier de Satin" é galardoado com o Leão de Ouro no Festival de Veneza.

Em 1988 apresentou, no Festival de Cannes, o folme "Os Canibais" e em 1990 "Non ou a Vã Glória de Mandar" foi exibido extra concurso, com uma menção especial do júri oficial. São várias as homenagens que tem recebido - Veneza (1991), La Carmo (1992), Tóquio (1993), São Francisco e Roma (1994), entre outros. A Sociedade Portuguesa de Autores atribuiu-lhe, em 1995, o Prémio Carreira e em 1997, a SIC e a revista CARAS atribuiram-lhe o Prémio de Melhor Realizador.

(para a biografia foram consultados: www.citi.pt e pt.wikipedia.org)


Num próximo post colocarei a filmografia completa de Manoel de Oliveira, com uma breve sinopse de cada um dos filmes.

terça-feira, 16 de outubro de 2007

A POMBA - Patrick Suskind

"Já quase transpusera a soleira, levantara já o pé, o esquerdo, a perna já começara a dar o passo - quando a viu. Estava pousada diante da porta, a menos de vinte centímetros da soleira, iluminada pelo pálido reflexo da luz matinal que entrava pela janela. Estava encolhida, com as patas de garras vermelhas assentes no pavimento do corredor, no ladrilho encarnado, cor de sangue de boi, com a sua plumagem lisa, cinzenta-chumbo: a pomba.
(...)

Enquanto se barbeava, foi raciocinando sobre os factos. "Jonathan Noel", disse de si para si, (...)Que fazes se conseguires passar pelo bicho medonho que guarda a tua porta, alcançar as escadas incólume e pôr-te a salvo? Poderás ir trabalhar, poderás chegar ileso ao fim do dia - mas que fazes depois? Para onde vais esta noite? Onde dormes?"Porque de uma coisa tinha ele a certeza absoluta, de não querer encontrar a pomba uma segunda vez (...)"


Terminei de ler este livro. Um livro pequeno, de 89 páginas, sobre o qual li num fórum de literatura. O autor, já conhecia, de um outro livro que li e sobre o qual um destes dias escreverei - "O Perfume".
"A Pomba" é um livro ligeiro, bem escrito, de uma linguagem simples, mas cujo conteúdo, também simples, nos leva a reflectir sobre a nossa existência.
Jonathan Noel leva uma vida monótona entre o seu trabalho como segurança num banco e o seu pequeno quarto alugado. Os seus dias são pautados pela rotina, os seus movimentos constituem rituais que lhe conferem estabilidade e segurança. Uma vida racional, onde as emoções e as relações pessoais não encontram espaço. Até que um dia, esta vida monótona é abalada por um acontecimento inesperado - de manhã cedo, ao abrir a porta do seu quarto para se dirigir à casa de banho comum, Jonathan Noel encontra uma pomba no corredor. Algo simples para qualquer comum mortal, mas não para ele... para ele, este acontecimento provoca uma quebra no seu dia-a-dia sempre igual, abalando a sua vida.
Uma reflexão existencial simples, mas ao mesmo tempo profunda., que nos coloca uma questão: por vezes, simples acontecimentos inesperados, podem mudar a nossa vida e a nós próprios. Estamos preparados?

sexta-feira, 12 de outubro de 2007

O PSICANALISTA - John Katzenbach


"Um 53.º aniversário muito feliz, senhor doutor. Seja bem vindo ao primeiro dia da sua morte. Existo algures no seu passado. O senhor destruiu-me a vida. Pode não saber como, nem porquê, nem sequer quando, mas destruiu. Desgraçou e entristeceu cada segundo da minha existência. Destruiu-me a vida. E agora eu tenciono destruir a sua.(...)
Mate-se, doutor.(...)
Portanto vamos jogar o seguinte jogo: O senhor tem exactamente quinze dias, a contar das seis horas de amanhã, para descobrir quem sou.(...) Se não conseguir, então... Essa é que é a parte divertida.(...)"


Ricky Starks, um psicanalista de Nova Iorque, recebe uma carta no dia do seu 53.º aniversário. Nessa carta, alguém que o conhece e à sua rotina diária, mas cuja identidade ele desconhece, define uma espécie de jogo em que o prémio é a vida ou a morte do psicanalista. Se descobrir quem é o autor da carta, sobrevive; se não descobrir terá de se matar ou alguém da sua família será destruído. Ricky Starks tem 15 dias para viver ou morrer.

"O Psicanalista" é um livro sobre o mal e a vingança; é um livro em que o passado procura acertar contas no presente, em que o ressentimento não tem limites... Para compreender o que está a acontecer, Ricky Starks terá de viajar até ao seu passado, ao início da sua carreira como psiquiatra e psicanalista, terá de pensar como o assassino que o persegue, terá de aprender a não confiar, terá de renascer...

Uma história brilhante de corrida contra o tempo, um perverso jogo de vingança que nos prende da primeira à última página.

De acordo com The Washington Post: "Em parte thriller, em parte tratado existencial, em parte registo freudiano do inferno... Um ritmo tenso, com um impecável sentido do tempo... A prosa ágil de Katzenbach é densa de atmosferas."

Já li e adorei. Um livro ao meu estilo: frio, intenso, onde as emoções e a racionalidade se cruzam, na busca da verdade, na busca da vida.

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

Aung San Suu Kyi





Não consigo ficar indiferente à luta desta mulher, de ar terno, que trava uma batalha memórável pela libertação do seu povo. São pessoas assim que merecem a minha admiração.

Um pouco da sua história:

Nasceu eu Rangum a 19 de Julho de 1945, filha de Aung San, herói nacional da independência da Birmânia, assassinado quando Aung San Suu yi tinha apenas dois anos de idade. Estudou nas melhores escolas de Rangum, na Índia e foi assistente da Ecola de Estudos Orientais de Londres.

Casou, em 1972, com o britânico Michael Aris, universitério especialista em Tibete e Budismo, com quem teve 2 filhos.

Em 1988, devido a problemas de saúde que levaram à morte de sua mãe, regressou à Birmânia, regresso esse que coincide com a eclosão de uma revolta popular espontânea contra 26 anos de repressão política e regressão económia do país. Nesse mesmo ano, como consequência das medidas de repressão adoptadas pelo regime birmanês, morreram 10.000 pessoas.

Nas eleições de 1990, o partido de Aung San Suu Kyi - Liga Nacional para a Democracia - obtém uma vitória esmagadora.

Esteve em prisão domiciliária desde 1989 até 1995, altura em que teve um período de "liberdade" até 2000, ano em volta a ser confinada ao seu domicílio por mais 19 meses. Presa novamente em Maio de 2003(após uma tentativa de assissanato no seu automóvel), mantém-se até hoje, em prisão domiciliária.

Em 1990 ganhou o prémo Sakharov de Liberdade de Pensamento, e m 1991 foi galardoada com o Prémio Nobel da Paz.

O regime de sanções imposto pela União Europeia e pelos Estados Unidos, há uma década, mostra-se ineficaz contra outros "gigantes" que mantém relações com a Birmânia - China, Índia e Tailândia.

Não será de mais referir que a Birmânia tem grandes fontes de energias naturais, especialmente de gáz natural!






quinta-feira, 27 de setembro de 2007

Eça de Queiróz


Já não é novidade, para alguns de vós, o meu gosto especial por Eça de Queiróz. Por isso, decidi escrever um pouco sobre o autor, e um dos seus livros, ou melhor, sobre o contexto sócio-cultural e histórico de um dos seus livros (o meu favorito) - "Os Maias".
De forma a não tornar o texto muito descritivo, farei uma breve biografia do autor e o restante texto criei-o em forma de entrevista virtual a Eça de Queiróz. Espero que gostem.

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José Maria Eça de Queiróz nasceu a 25 de Novembro de 1845, na Póvoa de Varzim. É filho de José Maria de Almeida Teixeira de Queiróz, magistrado e homem de letras, que só se casa com a mãe de Eça de Queiróz quatro anos após o seu nascimento. Estuda, como interno, no Colégio da Lapa, no Porto e é aí que se inicia nas leituras de Garrett, por influência do director, pai de Ramalho Ortigão.

Em 1861 vai para Coimbra, onde se forma em Direito, no ano de 1866. É então que conhece Antero de Quental e outros, que virão a formar a chamada "Geração de 70". Em Março de 1866 publica na "Gazeta de Portugal" o seu primeiro texto: "Notas Marginais". Juntamente com Antero de Quental, e sob influência de Baudelaire, cria a figura "satânica" de Fradique Mendes, verdadeiro duplo de Eça. Ainda em 1866 instala-se em Lisboa, na casa de seu pai, onde cria o "Grupo do Cenáculo"

Três anos depois assiste à abertura do canal do Suez e visita o Egipto e a Palestina, onde recolhe material para o romance "A Relíquia", publicado em 1887. Em Évora cria um jornal da oposição, "ODistrito de Évora". Em Julho de 1870 é nomeado administrador do concelho de Leiria, cargo que ocupa durante um ano, e cujo ambiente social é recriado em "O Crime do Padre Amaro". Escreve durante esse período, em colaboração com Ramalho Ortigão, um folhetim para o "Diário de Notícias": "O Mistério da Estrada de Sintra", cuja intriga marcadamente policial abala a tranquilidade estagnante dos leitores.

Em Novembro de 1872, parte como cônsul para o Havana, seguindo em missão oficial para os Estados Unidos. É transferido para o consulado de Newcastle, Inglaterra em Novembro de 1874, seguindo-se Bristol. Em 1883 é eleito sócio da Academia das Ciências (sem nunca lá ter ido) e casa-se com a irmã do Conde de Resende, seu amigo. Em 1888 é nomeado cônsul em Paris, concretizando assim, o sonho da sua vida, e aí permanece até à sua morte, a 17 de Agosto de 1900.

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E agora, a entrevista virtual a Eça de Queiróz, sobre o contexto sócio-cultural e histórico de "Os Maias".

Homem do Leme - Sabemos que os maiores acontecimentos da década de 70 foram: a Geração de 70 e, consequentemente, a Questão Coimbrã. Tudo começou com uma carta de Feliciano de Castilho, onde ele atacava ironicamente os dois novatos com maior influência em Coimbra - Antero de Quental e Teófilo Braga. Podia-nos contar estes acontecimentos mais detalhadamente?

Eça de Queiroz - Antes de mais queria agradecer o facto de me terem convidado a vir aqui, falar de acontecimentos tão marcantes para a minha vida e para a vida de todos os portugueses, acontecimentos esses que influenciaram homens de letras de hoje e que influenciarão homens de letras de gerações futuras. Retomando agora o assunto da nossa conversa: tal como foi dito, toda a questão Coimbrã teve início com uma carta-posfácio escrita por Castilho e editada com o "Poema da Mocidade" de Pinheiro Chagas, em 1865. Essa carta, atacava desapropriadamente, Antero de Quental e Teófilo Braga que tinham publicado respectivamente, "Odes Modernas" e "Visão dos Tempos" e que pelas ideias expressas tinham perturbado Castilho...

HL - ... entretanto, Castilho nomeia Pinheiro de Chagas para regente da cadeira de Literatura Moderna da Faculdade de Letras...

Eça - ... sim, sim; cargo esse que era disputado também por Antero de Quental, Teófilo Braga e Vieira de Castro. Mas é claro que Feliciano de Castilho se opôs a todos estes candidatos, alegando que era necessário pôr fim à desorientação presente na língua portuguesa. É então que Antero de Quental escreve uma carta, conhecida pelo nome de "Bom Senso e Bom Gosto", onde insulta violentamente o velho Castilho.

HL - Mas nesta luta de Antero e Castilho, como em todas as lutas, existiam apoiantes de ambas as partes...

Eça - ... é claro. Antero era apoiado por Teófilo Braga, Oliveira Martins e por mim, entre outros. Ao lado de Castilho aparecem Pinheiro Chagas e Camilo. A juventude apoiante de Antero ficou conhecida por Geração de 70 e toda esta questão por Questão Coimbrã.

HL - Há quem diga que a geração de 70 corresponde a um "terceiro romantismo". Concorda com esta afirmação?

Eça - Concordo. Se se considerar Herculano e Garrett como o "primeiro romantismo"e António Feliciano de Castilho como o "segundo romantismo", então nós somos o "terceiro romantismo".

HL- Terceiro romantismo esse que se opõe ao segundo romantismo...

Eça- ...é claro, pois se Antero e Castilho são opositores, logo os romantismos por eles defendidos também se opõem!

HL - Apesar do terceiro romantismo adoptar, de certo modo, as ideias políticas e culturais do romantismo de Garrett, as suas influências ideológicas são bastante diferentes.

Eça - Sim. A nossa ideologia é influenciada por Hegel, Marx, e outros; a nível de elementos estéticos, os mais marcantes são o realismo e o naturalismo de Zola e de Flaubert,estes últimos que consistem em...

HL - Sr. Eça, deesculpe interrompê-lo, mas gostaria de lhe pedir que guardasse esse tema do Naturalismo e do Realismo para daqui a pouco, pois é um tema que também aqui vamos desenvolver. Mas agora gostaria de lhe fazer uma outra pergunta, se não se importa...

Eça - Não, de maneira nenhuma. Sabe como é, são tão raras as oportunidades de se fazer história completa, que nos deixamos levar pelo entusiasmo. Mas continue...

HL - A próxima questão é a seguinte: O Sr. fez parte da sociedade "inter-amicos", os Vencidos da Vida, formada em Lisboa no ano de 1887/88. Qual a finalidade desta sociedade?

Eça - Os Vencidos da Vida era um grupo de personalidades de relevo na vida literária (isto só cá para nós, de grandes personalidades!). A ideia partiu de Ramalho Ortigão e tinha como objectivo juntar colegas que outrora tinham pertencido à Geração de 70.

HL - Isso quer dizer que os assuntos discutidos em tais reuniões eram uma continuação da Questão Coimbrã?

Eça - Não propriamente, pois a questão Coimbrã foi mais uma questão literária e a manifestação dos Vencidos era uma atitude de protesto perante a vida portuguesa. É claro que a nossa manifestação, era a manifestação do espírito de reforma, inaugurada com a questão Coimbrã, simbolizando o objectivo aristocrático e intelectual do movimento da Geração de 70, que em conflito com as leis regentes do constitucionalismo tornou-se um pessimismo irónico e elegante. Talvez nós (os vencidos) não tenhamos sido uma continuação da questão Coimbrã, mas sim uma evolução da mesma. É também nesta fase que eu, Antero de Quental e Oliveira Martins renunciamos à acção política, surgindo assim o socialismo utópico.

HL - Agora sim, vamos falar do Naturalismo e do Realismo. O período do realismo teve início com a questão Coimbrã. Posteriormente aparecem as conferências do Casino. No que é que consistiam essas conferências?

Eça - A ideia partiu de Antero de Quantal, com a finalidade de unir os adeptos das novas ideias, que tinham sido colegas em Coimbra. Essa conferências permitiam-nos discutir (e essa é que era a sua verdadeira finalidade) as questões contemporâneas: religiosas, políticas, sociais e científicas.

HL - Por isso elas eram chamadas de "livres, democráticas e científicas"...

Eça - Sim, pois elas tornaram-se num meio de propaganda aberta de um ideal revolucionário para a transformação social, moral e política dos povos.

HL - Toda a base destas conferências poder-se-á chamar de dupla, uma vez que se baseiam nas ciências humanas despertadas ao nível desta geração e nas ciências políticas consciencializadas pela geração anterior. Concorda?

Eça - Sim, concordo. Senão vejamos as preocupações dos conferencistas de 71:
1.º - Ligar Portugal ao movimento moderno
2.º - Agitar, na opinião pública, as grandes questões da filosofia e da ciência modernas
3.º - Estudar todas as ideias e todas as correntes do século
4.º - Adquirir a consciência dos factos que nos rodeiam na Europa.

HL - É todo esse interesse pela realidade e pela análise social que caracteriza o realismo.

Eça - Ideologicamente falando é, pois o Realismo opõe-se ao Idealismo, ou seja, ao Romantismo, com toda a sua formalidade e sentimentalismo. O Realismo não é nada disso, pelo contrário, ele é anti-idealista; o Realismo quer observar os factos e analisá-los rigorosamente.

HL - E quais os temas de interesse dos realistas?

Eça - Os realistas preocupavam-se em exteriorizar a vida burguesa nos seus aspectos negativos: a ambição, a avareza, a cobiça, a corrupção; representavam também a vida urbana, pois é nas grandes cidades que mais se fazem sentir as tensões sociais, políticas e económicas.

HL - Sendo assim, os realistas procuram mostrar o sofrimento social e moral da frustração, da corrupção e do vício.
Eça - Sim, absolutamente. De um modo geral, o realismo denuncia e analisa criticamente os vícios da sociedade.
HL - O período que se segue ao Realismo é o Naturalismo. Ideologicamente, o Naturalismo é influênciado pela ciência e pela filosofia do século XIX, destacando-se o positivismo de Auguste Comte, onde o importante é analisar vigorosamente os factos e as suas causas. O Determinismo, pensamento relacionado com o Positivismo, também é importante pois preocupa-se mais com as causas dos fenómenos, do que com os fenómenos propriamente ditos. Tematicamente, quais as principais preocupações dos Naturalistas?
Eça - Os temas fundamentais dos Naturalistas são: o alcoolismo como deformação social; o jogo como consequência de determinadas situações de injustiça; o adultério como resultante de uma educação romântica errada; a opressão social como resultante de interesses económicos, políticos e sociais.

HL - Agora gostava que explica-se onde é que tudo isto se aplica em "Os Maias".
Eça - Para fazer essa explicação, vamos por partes: No capítulo VI, durante a discussão entre Alencar e Ega, no Hotel Central, está presente a oposição das duas correntes literárias (Realismo versus Romantismo), e a sua caracterização:
"Craft não admitia também o naturalismo, a realidade feia das coisas e da sociedade estatelada nua num livro.(...)
(...) Ega, horrorizado, apertava as mãos na cabeça - quando do outro lado Carlos declarou que o mais intolerável no realismo eram os seus grandes ares científicos, a sua pretensiosa estética deduzida de uma filosofia alheia, e a invocação de Claude Bernard, do experimentalismo, do positivismo, de Stuart Mill e de Darwin, a propósito de uma lavadeira que dorme com um carpinteiro!" (Os Maias)

HL - Também se pode interpretar essa discussão como o simbolizar da questão Coimbrã?


Eça - Sim, nesse caso Alencar, que defende o Romantismo, corresponde a Castilho, e Ega,
defensor das teorias naturalistas, simboliza Antero.


HL - As conferências do Casino também estão presentes neste romance?

Eça - Estão, no capítuo IV, onde se relata todo o ambiente nocturno nos Paços de Celas, e onde se discutia a Arte, o Positivismo, o Realismo e outros assuntos relacionados com o Naturalismo.

"Os Paços de Celas, sob a sua aparência preguiçosa e campestre, tornaram-se uma fornalha de actividades. No quintal fazia-se uma ginástica científica. Uma velha cozinha fora convertida em sala de armas - porque naquele grupo a esgrima passava como uma necessiade social. À noite, na sala de jantar, moços sérios faziam um wist sério: e no salão, sob o lustre de cristal, com o Fígaro, o Times e as revistas de Paris e de Londres espalhadas pelas mesas, o Gamacho ao piano tocava Chopin e Mozart, os literatos estirados pelas poltronas - havia ruídosos e ardentes cavacos, em que a Democracia, a Arte, o Positivismo, o Realismo, o Papado, Bismarck, o Amor, Hugo e a Evolução, tudo por seu turno flamejava no fumo do tabaco, tudo tão ligeiro e vago como o fumo. E as discussões metafísicas, as próprias certezas revolucionárias adquiriram um sabor mais requintado com a presença do criado de farda desarrolhando a cerveja, ou servindo croquetes." (Os Maias)

HL - Sr. Eça, o sr. não manifesta a sua discordância com o Romantismo neste romance?

Eça - Mas é claro que sim! E faço-o no capítulo III através de Afonso da Maia, na sua conversa com o abade.

"(...) Mas enfim os clássicos - arriscou timidamente o abade.
- Qual clássicos! O primeiro dever do homem é viver. E para isso é necessário ser são, e ser forte. Toda a educação sensata consiste nisto :criar a saúde, a força e os seus hábitos, desenvolver exclusivamente o animal, armá-lo de uma grande superioridade física, Tal qual como se não tivesse alma. A alma vem depois .... A alma é outro luxo. É um luxo de gente grande...
O abade coçava a cabeça, com o ar arrepiado.
- A instruçãozinha é necessária - disse ele. - Você não acha, Vilaça? Que Vossa Excelência, Sr. Afondo da Maia, tem visto mais mundo do que eu... Mas enfim a instruçãozinha...
- A instrução para uma criança não é recitar Tityre, tu patulae recubans... É saber factos, noções, coisas úteis, coisas práticas..." (Os Maias)

HL - E a fase dos vencidos da vida, onde é que se situa?

Eça - Essa fase está no último capítulo, quando Carlos, após 10 anos de permanência por terras francesas volta a Lisboa e encontra tudo na mesma, é a desilusão, a tomada de consciência de que a sua luta foi em vão.

"(...) E Carlos reconhecia, escostados às mesmas portas, sujeitos que lá deixara havia dez anos, já assim encostados, já assim melancólicos. (...)
- Falhámos a vida, menino!
- Creio que sim... Mas todo o mundo mais ou menos a falha. Isto é, falha-se sempre na realidade aquela vida que se planeou com a imaginação. Diz-se: "Vou ser assim, porque a beleza está em ser assim." E nunca se é assim, é-se invariavelmente assado, como dizia o pobre marquês. (...) Com efeito, não vale a pena fazer um esforço, correr com ânsia para coisa alguma.
Ega, ao lado, ajuntava, ofegante, atirando as pernas magras:
- Nem para o amor, nem para a glória, nem para o dinheiro, nem para o poder...
A lanterna vermelha do americano, ao longe, no escuro, parara. E foi em Carlos e em João da Ega uma esperança, outro esforço:
-Ainda o apanhamos! (...)" (Os Maias)

HL - Obrigado, por esta lição de literatura!


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